Durante décadas, a Guerra Fria foi contada como uma disputa de mísseis, embaixadas e guerras por procuração. Mas havia uma terceira frente, menos visível e talvez mais duradoura em seus efeitos: a disputa pelas almas e pelos púlpitos da América Latina. Documentos desclassificados da CIA e o material contrabandeado por um arquivista soviético mostram que tanto Washington quanto Moscou passaram parte considerável da Guerra Fria estudando, infiltrando e tentando manipular a Igreja Católica latino-americana — e é dentro desse tabuleiro que nasceu, cresceu e se tornou arma política a chamada teologia da libertação. A pergunta que título deste texto propõe — a KGB criou a teologia da libertação? — tem uma resposta mais interessante do que um simples sim ou não, e ela só aparece quando se colocam lado a lado os papéis que a CIA desclassificou e os que a KGB tentou destruir.
O memorando que transformou a Igreja em alvo de inteligência
Em 12 de julho de 1969, um documento burocrático saiu do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca de Richard Nixon com um título quase entediante: National Security Study Memorandum 68 (NSSM 68). Endereçado ao Secretário de Estado, ao diretor da CIA e ao presidente do Estado-Maior Conjunto, o memorando determinava que, após uma reunião do Conselho de Segurança Nacional sobre política latino-americana, a CIA preparasse um relatório país por país sobre a Igreja Católica na região — sua liderança, suas tendências internas, o papel do clero estrangeiro — enquanto o Estado-Maior faria o equivalente sobre as Forças Armadas latino-americanas. O documento, hoje disponível na sala de leitura de FOIA da CIA, coloca as duas instituições lado a lado como peças estratégicas do mesmo tabuleiro, o que já diz muito sobre como o governo americano enxergava o continente naquele momento.
A resposta da CIA veio dois meses depois, em 10 de setembro de 1969: um estudo de mais de sessenta páginas intitulado “The Committed Church and Change in Latin America”, identificado internamente pelo codinome ESAU XLIII/69 e assinado pelo analista Joseph R. Barager, da Divisão de Pesquisa Especial da agência. O relatório dividia o clero latino-americano em três blocos — os reacionários, apegados ao status quo; os não comprometidos, uma maioria silenciosa; e os comprometidos, subdivididos em progressistas dispostos a reformar o sistema por dentro e radicais dispostos a métodos mais duros, incluindo a violência. O texto nomeava organizações e figuras específicas, entre elas o movimento inspirado no padre guerrilheiro colombiano Camilo Torres Restrepo e o círculo formado em torno do padre austríaco Ivan Illich em seu centro de estudos em Cuernavaca, no México, e concluía que a tendência dentro da Igreja era de radicalização crescente.
1986: a CIA nomeia o inimigo
Dezessete anos depois, em abril de 1986, a Diretoria de Inteligência da CIA voltou ao assunto com um documento ainda mais direto: “Liberation Theology: Religion, Reform, and Revolution”, catalogado como GI 86-10028. O relatório nasceu de uma conferência que a própria CIA organizara no fim de 1985 sobre teologia da libertação e comunismo, e não deixava dúvidas sobre a leitura que a agência fazia do fenômeno: descrevia a teologia da libertação como uma doutrina católica de inspiração marxista que ajudara os sandinistas a chegar ao poder na Nicarágua e alimentara movimentos de reforma radical na Guatemala, em El Salvador, no Brasil e no Chile, unindo duas forças simbólicas poderosas — o marxismo e o cristianismo. O documento reconhecia Leonardo Boff e Gustavo Gutiérrez como as figuras centrais da doutrina e via nela, ao mesmo tempo, uma ameaça e uma oportunidade: ameaça porque abria espaço para exploração soviética e cubana; oportunidade porque, em países como o Brasil, ajudava a pressionar a transição da ditadura militar para um governo civil. Até aqui, o que os arquivos mostram sem sombra de dúvida é que o governo americano tratava a Igreja Católica latino-americana como um campo de batalha estratégico da Guerra Fria — não que a Igreja fosse uma criação de Washington, mas que Washington a via, com toda seriedade, como uma peça a ser monitorada e, quando possível, influenciada.
O outro lado do tabuleiro: o arquivo Mitrokhin
Se a CIA deixou seu rastro em memorandos desclassificados, o outro lado da história só veio à tona graças à ousadia de um único homem. Vasili Mitrokhin foi arquivista da KGB entre 1956 e 1985, responsável por supervisionar a transferência de dezenas de milhares de documentos para a nova sede do serviço em Moscou. Durante anos, ele copiou secretamente parte desse material e escondeu as anotações em sua casa; depois do colapso da União Soviética, em 1992, desertou para o Reino Unido com a ajuda do MI6, levando consigo baús inteiros de notas. Esse material serviu de base para dois livros escritos com o historiador britânico Christopher Andrew, “The Sword and the Shield” (1999) e “The World Was Going Our Way” (2005), e mais recentemente para “The KGB and the Vatican: Secrets of the Mitrokhin Files”, organizado pelo historiador Sean Brennan, da Universidade de Scranton — um livro que chegou a ser resenhado de forma elogiosa dentro da própria revista interna da CIA, a Studies in Intelligence.
O que esse arquivo mostra é que o Vaticano estava, sim, entre os alvos prioritários de vigilância da KGB, mas que penetrar de fato sua estrutura fechada foi tarefa extremamente difícil. Em 1956, a chamada Operação Estudantes tentou infiltrar dois agentes disfarçados de seminaristas na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma; eles chegaram a se encontrar pessoalmente com o papa João XXIII antes de serem identificados como espiões e a operação fracassar. Anos depois, em 1968, o próprio residente da KGB em Roma reconhecia internamente, em relatório interno, como era difícil penetrar de fato na estrutura fechada e desconfiada do Vaticano.
Onde a infiltração deu certo: a Igreja Ortodoxa e o Conselho Mundial de Igrejas
Foi fora de Roma que a KGB colheu seus resultados mais concretos. Segundo o arquivo Mitrokhin, a agência teve sucesso muito maior dentro da Igreja Ortodoxa Russa e do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), sediado em Genebra — a maior organização ecumênica do mundo depois do próprio Vaticano, reunindo centenas de milhões de cristãos em mais de cem países. O nome central aqui é o do metropolita Nikodim Rotov, número dois da hierarquia ortodoxa russa, identificado nos arquivos da KGB pelo codinome “Sviatoslav”: Nikodim foi um dos artífices da entrada da Igreja Ortodoxa Russa no CMI em 1961, tornou-se um de seus seis presidentes em 1975 e, segundo o pesquisador Robert D. Chapman — um ex-oficial das operações clandestinas da própria CIA, em artigo publicado no International Journal of Intelligence and Counterintelligence —, foi ele quem levou a agenda da teologia da libertação para dentro daquele fórum ecumênico. Décadas depois, outro nome apareceria nos mesmos arquivos: o do jovem clérigo Vladimir Gundyaev, codinome “Mikhailov”, representante do CMI em Genebra a partir do início dos anos 1970 — o mesmo homem que, em 2009, se tornaria o patriarca Kirill de Moscou. Documentos suíços desclassificados em 2023 corroboraram essa ligação, mostrando que a missão de Kirill em Genebra incluía tentar influenciar as autoridades locais em favor de posições soviéticas.
Até este ponto, tudo o que foi dito está ancorado em fontes primárias razoavelmente sólidas: memorandos desclassificados da CIA de um lado, o arquivo Mitrokhin e pesquisas acadêmicas posteriores do outro. O quadro que emerge é o de duas agências de inteligência rivais tentando, cada uma a seu modo e com sucesso desigual, entender e manipular estruturas religiosas — mais eficazes no mundo ortodoxo e ecumênico, mais frustradas dentro do próprio Vaticano católico romano.
A acusação mais forte — e a mais contestada
É a partir daqui que a história entra em terreno mais controverso, e vale contá-la com honestidade. A afirmação mais categórica de todas não vem da KGB nem do arquivo Mitrokhin, mas de Ion Mihai Pacepa, ex-general da polícia secreta comunista da Romênia (a Securitate) e um dos desertores de mais alta patente de todo o bloco soviético durante a Guerra Fria, tendo fugido para os Estados Unidos em 1978. Em entrevista à Catholic News Agency em 2015, retomada depois em diversas publicações conservadoras americanas, Pacepa afirmou que aprendera com o general soviético Aleksandr Sakharovsky — então chefe da inteligência externa da KGB e, segundo Pacepa, seu superior direto nos serviços romenos — que a ideia de exportar o comunismo para a América Latina remontava à visita de Nikita Khrushchev à Romênia em 1959. Segundo esse relato, a KGB teria criado a Conferência Cristã pela Paz, sediada em Praga, e usado essa organização, com o apoio do Conselho Mundial da Paz, para manobrar um grupo de bispos latino-americanos de esquerda a realizar, em 1968, a Conferência Episcopal de Medellín, na Colômbia — encontro que, segundo Pacepa, teria sido desenhado desde o início para legitimar um movimento religioso de mobilização dos pobres contra a chamada “violência institucionalizada da pobreza” e para em seguida buscar o reconhecimento oficial do Conselho Mundial de Igrejas. Foi ali, na versão de Pacepa, que teria nascido o próprio nome “teologia da libertação”.
Por que os historiadores contestam essa versão
O problema é que a cronologia não fecha, e historiadores de diferentes tradições — inclusive católicos conservadores pouco simpáticos à teologia da libertação — apontaram isso com força equivalente à da acusação. A organização que promoveu a Conferência de Medellín, o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), foi criada em cooperação direta com o próprio Vaticano já em 1955, treze anos antes de qualquer suposta manobra soviética, e desde sua fundação pretendia se reunir a cada década — não havia necessidade de “manobrar” bispo algum para que o encontro acontecesse. Mais grave ainda para a tese de Pacepa: o planejamento de Medellín começou logo após o encerramento do Concílio Vaticano II, em 1965, três anos antes da Conferência Cristã pela Paz sequer existir naquela configuração, como parte do esforço da própria Igreja para aplicar as conclusões do Concílio à realidade latino-americana. Os documentos finais de Medellín, além disso, foram aprovados pela ampla maioria dos bispos presentes, o que seria difícil de explicar se o encontro tivesse sido, desde o início, uma operação de manipulação externa. A teologia da libertação como corpo de pensamento tem raízes que remontam a processos internos da própria Igreja Católica ao longo da década de 1950 e ao próprio Concílio Vaticano II — processos que antecedem ou correm paralelos a qualquer programa soviético descrito por Pacepa, e não decorrem dele.
Fontes primárias e leitura complementar
- National Security Study Memorandum 68 (12 de julho de 1969) — CIA FOIA Reading Room, cia.gov/readingroom
- “The Committed Church and Change in Latin America”, ESAU XLIII/69 (10 de setembro de 1969) — CIA FOIA Reading Room
- “Liberation Theology: Religion, Reform, and Revolution”, GI 86-10028 (abril de 1986) — CIA FOIA Reading Room
- Christopher Andrew e Vasili Mitrokhin, “The Sword and the Shield” (1999) e “The World Was Going Our Way” (2005)
- Sean Brennan (org.), “The KGB and the Vatican: Secrets of the Mitrokhin Files” (Catholic University of America Press, 2022)
- Robert D. Chapman, “The Church in Revolution”, International Journal of Intelligence and Counterintelligence
- Entrevista de Ion Mihai Pacepa à Catholic News Agency (2015)
- Contraponto acadêmico: Catholic Moral Theology, “Was Liberation Theology Created by the KGB?”