Não, o Brasil não é uma Nação. O Brasil é um público diverso escravizado por uma elite burocrática.

O Brasil é uma Nação? Não. Aqui está o porque.

A questão de definirmos o que é uma nação é enganosamente simples. À primeira vista, parece se referir a um país, estado ou governo, mas, se nos aprofundarmos, descobrimos que a nação é um fenômeno muito mais complexo do que isso, e tem implicações psicológicas, sociológicas, étnicas e culturais que são completamente distintas do Estado (que é uma entidade jurídica, militar e burocrática).

Para aprofundar ao máximo, precisamos dissecar o conceito de nação em camadas: etimológica, filosófica, histórica e existencial.

1. A Camada Etimológica: “Nascimento”

A palavra vem do latim natio, derivada de nasci (nascer). Originalmente, na Roma Antiga, natio era um termo pejorativo usado para descrever grupos de estrangeiros na cidade que compartilhavam uma origem geográfica ou de sangue, mas que não eram cidadãos romanos. Na raiz, “nação” liga-se à ideia biológica de descendência comum.

2. O Grande Cisma: O que define a Nação?

Historicamente, há duas grandes escolas de pensamento que tentam definir a “alma” de uma nação. A tensão entre elas explica muitos conflitos modernos.

A. A Visão Objetiva (Escola Alemã / Romântica)

Influenciada por pensadores como Johann Gottfried von Herder e Fichte.

  • A tese: A nação é um organismo natural, determinado por fatores objetivos e involuntários: sangue (jus sanguinis), solo, língua e folclore ancestral.
  • A implicação: Você não escolhe sua nação; ela escolhe você. Mesmo que você esqueça sua língua ou mude de país, a “alma nacional” (Volk) reside em você. É uma visão determinista e essencialista.

B. A Visão Subjetiva (Escola Francesa / Cívica)

Cristalizada na famosa conferência de Ernest Renan em 1882, “O que é uma nação?”.

  • A tese: A nação é um “plebiscito diário”. É um ato de vontade. Não depende de raça ou língua (a Suíça tem várias línguas e é uma nação; os EUA têm várias raças).
  • A implicação: O que une a nação é o passado compartilhado (glórias e, principalmente, sofrimentos comuns) e a vontade presente de continuar vivendo juntos. Ernest Renan dizia que, para uma nação existir, é preciso ter muito em comum, mas também ter esquecido muitas coisas juntos (como guerras civis antigas).

3. A Nação como “Comunidade Imaginada”

O cientista político Benedict Anderson trouxe, talvez, a definição que mais se encaixa no mundo moderno. Ele define a nação como uma “comunidade política imaginada”.

  • Por que “imaginada”? Não no sentido de “falsa”, mas no sentido de que nenhum membro de uma nação jamais conhecerá todos os outros membros. No entanto, na mente de cada um, vive a imagem de sua comunhão.
  • A cola social: Essa “imaginação” só se tornou possível com jornais, livros mídia que permitiram que pessoas em regiões distantes percebessem que compartilhavam o mesmo tempo, língua e preocupações, criando uma solidariedade horizontal com estranhos de diferentes origens.

4. Nação vs. Estado: A Distinção Crucial

Esta é a confusão mais comum.

  • Estado: É a máquina. O monopólio da força, a burocracia, os impostos, as fronteiras geográficas, o passaporte. É uma entidade jurídica e militar.
  • Nação: É o povo. É a identidade, a cultura, a lealdade, a língua. É uma entidade espiritual/cultural.

O paradoxo: Existem “Estados-Nação” (onde as fronteiras culturais coincidem com as políticas, como no Japão), mas também existem:

  • Nações sem Estado: Os curdos, os catalães, ou povos indígenas que possuem identidade fortíssima, mas não soberania política.
  • Estados sem Nação: Países criados artificialmente (frequentemente ex-colônias) que contêm dezenas de grupos rivais dentro de fronteiras arbitrárias, sem um sentimento de unidade (Brasil).

5. A Perspectiva Existencial: O Medo da Morte

Indo ao nível mais profundo possível: Por que a nação é tão poderosa a ponto de pessoas morrerem por ela? Historiadores e psicólogos sugerem que a nação oferece uma forma de imortalidade simbólica. O ser humano sabe que vai morrer. A nação é projetada como algo “eterno”, que vem do passado imemorial e ruma ao futuro infinito. Ao pertencer a uma nação, o indivíduo sente que é parte de algo que sobreviverá à sua própria morte física. É por isso que os monumentos nacionais são frequentemente túmulos (o Soldado Desconhecido) e a retórica nacional é quase religiosa.

Resumo da Profundidade

Uma nação não é apenas um lugar no mapa. É um acordo intergeracional entre os mortos (a tradição), os vivos (o plebiscito diário) e os que ainda vão nascer. Ela existe na tensão perpétua entre a memória (quem dizemos que somos) e o esquecimento (o que escolhemos ignorar para não nos matarmos uns aos outros).

Não, o Brasil não é uma Nação.

1. Introdução: A Dissonância Ontológica entre Estado e Nação

A afirmação de que o Brasil constitui uma nação unificada é, sob o rigor da análise sociológica, histórica e política, uma das construções ideológicas mais persistentes e enganosas do hemisfério ocidental.

A premissa que orienta esta ideia não é apenas uma provocação retórica, mas uma dedução lógica baseada na distinção fundamental entre o conceito de Estado — uma entidade jurídico-administrativa territorial — e o conceito de Nação — uma comunidade imaginada fundamentada em laços orgânicos de cultura, ancestralidade e solidariedade horizontal.

A análise detalhada da formação social brasileira revela que o país opera não como uma nação coesa, mas como um Estado Multinacional não declarado, mantido sob uma unidade administrativa imposta coercitivamente sobre uma pluralidade de povos distintos, cujas identidades são sistematicamente apagadas.1

O argumento central, derivado da consulta que origina este documento, postula que a miscigenação no Brasil não foi um processo de síntese, mas uma ferramenta de “apagamento de cada cultura local”, resultando em uma “massa de pessoas diferentes entre si que não compartilham características semelhantes”.

Este relatório dissecará como o Estado brasileiro atua como um “redutor artificialmente inventado” 1, utilizando a burocracia e a violência simbólica para simular uma homogeneidade cultural que jamais existiu na prática. A “brasilidade” é, portanto, uma ficção jurídica, não uma realidade antropológica.

1.1. O Estado como Artifício e a Ausência de Solidariedade

Para compreender a inexistência da nação brasileira, é imperativo dissociar os conceitos. O Estado moderno é definido por elementos burocráticos: fronteiras, monopólio da violência, constituição e moeda.2 A nação, contudo, pressupõe uma tradição comum que viabilize a ideia de uma comunidade política onde os indivíduos se reconheçam reciprocamente.1 No Brasil, o Estado precedeu a nação. A estrutura administrativa foi transplantada de Portugal e expandida para garantir a unidade territorial de um império escravocrata, sem que houvesse, na base, um sentimento de pertencimento mútuo entre os habitantes.

A literatura sociológica aponta que identidades diluídas se formam e se desfazem em processos híbridos, e a suposta homogeneidade cultural brasileira é uma invenção das elites para legitimar seu controle.1 A falta de solidariedade horizontal — a incapacidade de um brasileiro do sul se ver refletido e responsável pelo destino de um brasileiro do norte — evidencia a ausência do cimento social básico que define uma nação. Como observado por especialistas, não existe um “povo brasileiro” no sentido de um corpo político consciente e solidário; existe, sim, uma massa populacional (público) gerida por uma elite que se vê distinta do restante da população.4

2. A Realidade Oculta: O Brasil como Estado Multinacional

A Constituição de 1988 mantém a ficção jurídica de uma unidade nacional indivisível. No entanto, a realidade demográfica e antropológica do território aponta para a existência de múltiplas nações sob a custódia de um único Estado, configurando o Brasil tecnicamente como um Estado Multinacional, similar em composição sociológica a países como a Bolívia ou o Equador, embora politicamente se recuse a adotar tal definição.3

2.1. O Plurinacionalismo Indígena e o Colonialismo Interno

A presença de centenas de povos indígenas, com línguas, cosmologias, sistemas jurídicos e organizações sociais próprias, desafia frontalmente a tese de uma nação brasileira única. Estes povos, que habitam o território desde tempos imemoriais, constituem “minorias nacionais”, culturas incorporadas que desejam continuar sendo sociedades distintas da cultura majoritária e exigem autonomia para assegurar sua sobrevivência.6

A recusa do Estado brasileiro em reconhecer-se como multinacional é uma estratégia de “colonialismo interno”. Ao impor a categoria “brasileiro” a um Yanomami ou a um Guarani, o Estado opera um apagamento de sua nacionalidade originária. O Supremo Tribunal Federal (STF), ao interpretar a Constituição, frequentemente rejeita a perspectiva de um Estado multinacional, reforçando a imposição de uma unidade política e territorial em detrimento da realidade plurinacional. A terra indígena, para o Estado, é propriedade da União; para a nação indígena, é um ente constitutivo de sua existência ontológica, um “ser” que resume ancestralidade e posteridade.7 Essa incomensurabilidade de valores prova a existência de nações distintas ocupando o mesmo espaço físico, mas vivendo em mundos normativos diferentes.

O direito brasileiro, emanado de uma sociedade que não é una, tenta impor um único Direito a uma pluralidade de existências e povos. Como leciona o jurista Carlos Frederico Marés de Souza Filho, “a uma sociedade que não é una, não pode corresponder um único Direito”.8 A insistência na unicidade jurídica é uma forma de violência que tenta incluir formalmente quem nunca foi integrado na comunidade imaginada da nação, perpetuando um estado de tutela e subalternidade.9

Tabela 1: Comparativo Conceitual – Estado Unitário vs. Realidade Multinacional

DimensãoMito do Estado-Nação BrasileiroRealidade do Estado Multinacional
SoberaniaÚnica, indivisível, emanada de “todo o povo”.Fragmentada; soberania estatal sobrepõe-se a autonomias indígenas e locais latentes.
TerritórioEspaço homogêneo de jurisdição da União.Mosaico de territorialidades (Terras Indígenas, Quilombos, Imigrantes) com significados ontológicos distintos.7
CidadaniaUniversal, baseada na igualdade formal perante a lei.“Cidadania diferenciada” necessária para acomodar direitos coletivos e culturais específicos.6
IdentidadeO “Brasileiro” como síntese mestiça.Pluralidade de identidades (Indígena, Europeia, Sertaneja, Gaúcha, Afro-brasileira) em tensão com a identidade estatal.

3. A Miscigenação como Tecnologia de Etnocídio

Um dos pilares centrais da mitologia nacional é a miscigenação. A narrativa oficial, consolidada por Gilberto Freyre e apropriada pelo Estado Novo, celebra a mistura de raças como a gênese do “Povo Brasileiro”, uma fusão harmônica que teria superado os conflitos raciais. Contudo, a análise crítica solicitada revela que a miscigenação não foi um processo de fusão, mas uma estratégia deliberada de apagamento étnico da diversidade racial dos povos que construíram o país, funcionando como uma tecnologia de etnocídio.

3.1. “Estupro Colonial” e a Origem da Mestiçagem

A afirmação de que “o Brasil se baseia em miscigenação étnica deliberada e aleatória” deve ser lida sob a ótica da violência. O processo de mestiçagem no Brasil tem suas raízes em grande parte no estupro sistemático de mulheres indígenas e negras pelos colonizadores. Historiadores e sociólogos contemporâneos utilizam o termo “estupro colonial” para descrever a gênese dessa população mestiça.10

Ao romantizar a “mulata” e a mistura, o Estado brasileiro naturaliza a violência sexual fundadora e apaga o trauma histórico. Não houve um “encontro” de culturas em pé de igualdade, mas a imposição biológica e cultural do dominador sobre o dominado. A prole desse processo, o mestiço, entrava na sociedade não como uma síntese de duas ou mais culturas, mas como um indivíduo despojado de sua ancestralidade africana, indígena ou europeia.12

3.2. A Política de Branqueamento: Eugenia como Projeto de Estado

A miscigenação foi politicamente induzida com o objetivo explícito de eliminar o elemento negro e indígena da população a longo prazo. No final do século XIX e início do XX, o Estado brasileiro promoveu ativamente a imigração europeia (italianos, alemães) sob a égide de teorias eugenistas e do Darwinismo Social. A elite intelectual e política da época acreditava que a “correção” dos componentes étnicos do Brasil se daria pela injeção de “sangue branco”, prevendo o desaparecimento da raça negra através da mistura sucessiva.14

Leis de imigração foram desenhadas para barrar a entrada de negros e asiáticos, favorecendo europeus, sob o pretexto de “civilizar” o país e garantir a formação de um tipo racial mais “eugênico”.15 Portanto, a “nação mestiça” nunca foi um projeto de convivência plural, mas um projeto de transição para uma nação mais branca. O “Pardo” torna-se, assim, uma categoria de transição, um não-lugar identitário que serve para estatisticamente diminuir a presença negra e indígena, dificultando a formação de uma consciência política racial unificada.13

3.3. Abdias do Nascimento e a Denúncia do Genocídio

O intelectual Abdias do Nascimento foi um dos críticos mais ferozes dessa lógica, denunciando a miscigenação compulsória como um instrumento de genocídio do negro brasileiro. Para Nascimento, a ideologia da miscigenação racial funciona como uma máscara que impede os negros de se reconhecerem como um povo distinto com interesses políticos próprios, fragmentando sua identidade em graduações de cor (pardo, moreno, mulato) que diluem a solidariedade racial.17 Consequentemente, a mesma coisa acontece com os brancos.

O conceito de “Quilombismo”, proposto por Nascimento, surge como uma alternativa de organização política e social baseada na herança africana, desafiando a estrutura do Estado brasileiro. A recusa do Estado em permitir que o negro ou o branco se afirmem como tal, forçando-o a uma identidade “brasileira” genérica e mestiça, é classificada como um “crime de genocídio” e “assassinato cultural”, pois nega o direito de resistência e existência autônoma de um grupo étnico.17

4. O Mito da Unidade Linguística e Cultural: A Engenharia da Proibição

Se o Brasil fosse uma nação orgânica, sua língua e costumes seriam manifestações naturais da vontade popular. No entanto, a história do Brasil é marcada por momentos em que o Estado precisou usar a força bruta e decretos imperiais para “inventar” brasileiros, proibindo as culturas, linguas e identidades preexistentes para forjar uma unidade artificial.

4.1. O Marquês de Pombal e o Assassinato da Língua Geral

Até meados do século XVIII, a língua mais falada no território brasileiro não era o português, mas a Língua Geral (Nheengatu), uma língua franca de base tupi que permitia a comunicação entre diferentes povos indígenas e colonos. O Brasil caminhava organicamente para ser uma nação de base cultural tupi. A intervenção do Marquês de Pombal, através do Diretório dos Índios (1757), proibiu terminantemente o uso do Nheengatu e impôs o português como única língua oficial.19

Esta medida não foi apenas administrativa; foi um ato de violência cultural extrema que amputou a língua natural do território. O Estado português, temendo a perda de controle sobre a colônia, destruiu o principal veículo de aglutinação cultural autônoma que estava se formando. O Brasil atual, falante de português, é resultado direto dessa proibição, uma nação de “mudas” culturais alienados de sua própria forma de expressão original, obrigados a adotar a língua portuguesa como se fosse sua.20

4.2. O Estado Novo e a Campanha de Nacionalização

No século XX, sob a ditadura de Getúlio Vargas, o Estado brasileiro novamente admitiu implicitamente que a “nação” não existia e precisava ser forjada à força. A “Campanha de Nacionalização” (iniciada em 1937/1938) proibiu o ensino e o uso público de línguas estrangeiras (alemão, italiano, japonês) em regiões do Sul e Sudeste onde essas comunidades viviam há gerações.21

O governo fechou escolas, queimou livros e prendeu cidadãos por falarem a língua de seus pais nas ruas. O Decreto-Lei nº 1.545 de 1939 e outros dispositivos legais visavam eliminar os “quistos étnicos” que ameaçavam a suposta unidade nacional.22 A identidade brasileira foi imposta via decreto policial, apagando as culturas locais e as tradições dos imigrantes europeus em nome de uma homogeneidade artificial. Esse processo gerou traumas profundos e ressentimentos regionais que perduram até hoje, alimentando a percepção de que “Brasília” e o poder central são forças colonizadoras externas que desrespeitam as particularidades locais.24

Tabela 2: Marcos Legais da Engenharia de Identidade e Apagamento Cultural

PeríodoAgente EstatalMedida Legal/AçãoObjetivo DeclaradoConsequência Real
Séc. XVIIIMarquês de PombalDiretório dos Índios (1757) e proibição do Nheengatu.Civilizar os índios e afirmar soberania portuguesa.Destruição da língua franca nacional (Nheengatu) e imposição do português.20
Séc. XIX/XXRepública VelhaLeis de Imigração e Terras (1850 em diante).Substituir mão de obra escrava e “branquear” a população.Marginalização do negro e criação de enclaves europeus.15
1937-1945Getúlio Vargas (Estado Novo)Campanha de Nacionalização e Decretos-Lei (ex: 1.545/1939).Assimilação forçada de imigrantes e eliminação de “quistos étnicos”.Prisões, fechamento de escolas, proibição de línguas (alemão, italiano) e trauma cultural no Sul.21

5. A Fragmentação Regional: “Dois Brasis” e os Movimentos Separatistas

A ideia de que o Brasil é uma massa homogênea é desmentida pela profunda fragmentação regional, que configura o que o sociólogo Jacques Lambert chamou de “Os Dois Brasis”: sociedades em estágios de desenvolvimento histórico e social completamente distintos coexistindo sob o mesmo teto estatal centralizador.26 Essa fragmentação não é apenas econômica, mas cultural e identitária, alimentando movimentos que rejeitam o conceito artificial de nacionalidade brasileira.

5.1. A Colcha de Retalhos Cultural

A cultura brasileira é descrita mais adequadamente como uma “colcha de retalhos” sem uma unidade orgânica, onde as partes não se integram em um todo coerente.27 Movimentos separatistas, como “O Sul é o Meu País” e grupos independentistas no Nordeste, articulam a ideia de que não há uma identidade brasileira coesa que represente seus interesses e modos de vida.29

  • O Separatismo do Sul: Este movimento reivindica uma identidade baseada na imigração europeia e tradições de fronteira, argumentando que o “ethos” sulista — focado no trabalho, na propriedade e na herança europeia — é incompatível com o restante do Brasil e sufocado pelo centralismo tributário e político de Brasília.31 A frase recorrente “Não somos brasileiros, somos gaúchos” reflete a primazia da identidade regional (a “pátria chica”) sobre a identidade nacional abstrata.29 Argumentos históricos, como a Revolução Farroupilha, são resgatados para justificar que a integração ao Brasil foi um acidente histórico ou uma imposição militar, não uma escolha voluntária.33
  • O Regionalismo Nordestino: Movimentos como o GESNI (Grupo de Estudo para o Nordeste Independente) argumentam que o Estado brasileiro atua em favor do Sudeste, tratando o Nordeste como uma colônia interna para extração de mão de obra barata e consumo de produtos industrializados. A identidade sertaneja, forjada em condições históricas, climáticas e sociais específicas (o cangaço, a seca, o coronelismo), constitui um ethos próprio que difere radicalmente do ethos cosmopolita de São Paulo ou industrial do Sul.30 A exclusão econômica perpetua a sensação de que o Nordeste é um “outro país” anexado, onde a cidadania plena é negada.35

As contradições regionais são tão agudas que intelectuais como Vera Lúcia Casa Nova argumentam que a busca por uma identidade nacional unitária é uma forma de “mascarar a assunção das diferenças existentes”, criando uma “identidade abstrata cultuada pelo Estado” que é imóvel e isolada da realidade vibrante e contraditória das culturas locais.36 O Brasil, como unidade, é uma ficção que desmorona assim que se atravessa uma fronteira estadual.

6. A Inexistência do “Povo Brasileiro”: Uma Massa de Desiguais

A conclusão lógica das tensões supracitadas é a tese sociológica de que “não existe o povo brasileiro”. Esta afirmação, longe de negar a existência física dos habitantes, aponta para a ausência de um corpo político unificado por valores, solidariedade e projeto comum.

6.1. O “Amontoado” de Gentes e a Elite do Atraso

Conforme o argumento apresentado na consulta original, o Brasil é habitado por uma “massa de pessoas diferentes entre si que não compartilham características semelhantes”. A economista Maria da Conceição Tavares descreve o Brasil não como uma nação, mas como um “amontoado de pessoas oriundas das mais variadas e díspares etnias… desterradas, sequestradas”.5 Somos um acampamento de gentes trazidas à força (escravizados) ou fugindo da fome e de guerras (imigrantes), sem raízes comuns profundas além da submissão ao mesmo Estado e à mesma língua imposta.

Jessé Souza, em sua análise sobre “A Elite do Atraso”, argumenta que a elite brasileira não vê o restante da população como concidadãos, mas como uma “ralé” de subumanos destinados a servi-la. Não há pacto nacional; há um pacto de dominação secular herdado da escravidão.37 A elite brasileira sente-se mais próxima culturalmente e ideologicamente de Miami ou Paris do que da periferia de seus próprios estados, evidenciando a ruptura total do tecido nacional. A solidariedade, elemento essencial para a definição de um povo segundo Habermas, é inexistente: o sofrimento de uma parte da população é indiferente, ou até desejável, para a outra parte.1

6.2. Darcy Ribeiro e a Ninguém-dade

Darcy Ribeiro, embora um defensor da formação de um novo povo (a “Nova Roma”), admitia a natureza traumática dessa gênese. Ele descreve os brasileiros como “carne da carne daqueles pretos e índios supliciados” e afirma que a nossa herança mais terrível é a “brutalidade” do exercício de poder sobre os homens.13 O brasileiro, em sua gênese, é um “ninguém”: o indígena desindianizado, o africano desafricanizado e o europeu desenraizado. Essa “ninguém-dade”, embora possa ser vista como potencialidade, é também a prova da destruição das identidades originais sem a garantia de uma nova identidade positiva. O brasileiro é definido pelo que perdeu, não pelo que construiu em comum.13

6.3. O Mito da Cordialidade como Mecanismo de Controle

O conceito de “homem cordial” e a insistência na “unidade nacional” funcionam como mitos conservadores para bloquear o conflito social. Ao insistir que “somos todos brasileiros” e que vivemos em uma “democracia racial”, o Estado deslegitima as lutas específicas de negros, indígenas e europeus, rotulando-as como “divisionistas” ou “importados”.40 O conservadorismo iluminista brasileiro utiliza o mito da nação liberal para manter a ordem e a hierarquia, negando a realidade de um país fraturado e violento onde a igualdade é apenas uma promessa constitucional jamais cumprida.38 A aversão ao conflito e à explicitação das diferenças, típica do “homem cordial”, impede o enfrentamento das desigualdades estruturais que inviabilizam um projeto real e não fictício de nação.

7. Conclusão: O Fracasso do Projeto Nacional

A análise exaustiva dos dados históricos, sociológicos e antropológicos confirma a hipótese levantada pelo questionamento inicial: O Brasil não é uma nação no sentido clássico, orgânico e solidário do termo. É, antes, uma estrutura estatal multinacional que falhou em integrar seus diversos povos em um projeto comum de prosperidade e reconhecimento mútuo.

Os pontos fundamentais que sustentam essa conclusão são:

  1. Ausência de Unidade Orgânica: O país é um mosaico de etnias e culturas (indígenas, africanas, europeias, asiáticas) que foram misturadas não por vontade ou afinidade, mas por violência colonial, estupro sistemático e políticas de Estado eugenistas. O resultado não é uma síntese, mas um apagamento de identidades originais e a criação de uma massa atomizada.10
  2. O Estado como Imposição Artificial: A estrutura política brasileira precede e oprime a sociedade. As tentativas de “criar a nação” envolveram a proibição violenta de línguas (Nheengatu, dialetos imigrantes), o etnocídio estatístico (branqueamento) e a repressão militar de identidades regionais.20
  3. Realidade Multinacional Sufocada: A existência de nações indígenas distintas, com direitos originários e cosmologias próprias, e de regionalismos fortes que flertam com o separatismo, configura um quadro de plurinacionalidade que a Constituição reconhece apenas parcialmente e que a prática política nega veementemente.3
  4. Inexistência de “Povo Brasileiro”: Existe uma população sob a jurisdição do Estado brasileiro, mas falta-lhe a solidariedade horizontal, o mito de origem comum (além do trauma colonial) e o projeto de futuro compartilhado que caracterizariam um verdadeiro povo. Somos, nas palavras de teóricos críticos, um “amontoado” gerido por uma elite predatória.5

Portanto, o Brasil permanece uma “colcha de retalhos” mal costurada com linhas frágeis de burocracia e autoritarismo. A insistência na ideia de uma “nação única e indivisível” serve mais para ocultar as profundas desigualdades, o racismo estrutural e as violências fundadoras do que para descrever a realidade social de seus habitantes. Reconhecer que o Brasil não é uma nação, mas um Estado multinacional e pluriétnico em busca de um pacto social ainda inexistente, é o passo necessário para desmantelar as ficções que perpetuam o apagamento das culturas locais e a exclusão da maioria de sua população.

Referências citadas

  1. a nação como sistema – e os novos nacionalismos – SciELO,  https://www.scielo.br/j/ln/a/vcNFZsQcymPTSq49qhHJYKt/?format=pdf&lang=pt
  2. Entenda a diferença entre: Estado, Nação, Povo e Comunidade – ESRI,  https://esri.net.br/estado-nacao-povo-e-comunidade/
  3. Limites e Possibilidades do Estado Plurinacional Boliviano: Um,  https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/123456789/28873/1/TathianaLacerdaAlc%C3%B3n_Dissert.pdf
  4. Imagens de publicidade e ensino de arte: reflexões para uma Educação da Cultura Visual – Cercomp,  https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/459/o/Tese_-V_Final_-Pablo_Petit_reduzido.pdf
  5. A essência da oligarquia e os impasses dos governos de coalizão, por Jeferson Miola – Jornal GGN,  https://jornalggn.com.br/artigos/a-essencia-da-oligarquia-e-os-impasses-dos-governos-de-coalizao-por-jeferson-miola/
  6. pluralismo, multiculturalismo e reconhecimento uma análise …,  https://revistas.ufpr.br/direito/article/viewFile/7050/5026
  7. A INCLUSÃO DA EXCLUSÃO DOS ÍNDIOS NO BRASIL: DO CASO “RAPOSA SERRA DO SOL” À ALDEIA MARACANÃ LA INCLUSIÓN DE LA EXCLUS – publicaDireito,  http://publicadireito.com.br/artigos/?cod=b9e1596ee2ffd515
  8. MULTICULTURALISMO NO BRASIL: UMA ANÁLISE DA EVOLUÇÃO NA DEFESA DA IDENTIDADE DOS POVOS INDÍGENAS Multiculturalism in brazil:,  https://revista.jfpe.jus.br/index.php/RJSJPE/article/download/199/183
  9. POVOS INDÍGENAS E INTERCULTURALIDADE NA FRONTEIRA – Indigenous Peoples and Intercultutalism at the Border,  https://periodicos.ufms.br/index.php/revgeo/article/view/2508/2346
  10. UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA A PALAVRA DA VÍTIMA DE ESTUPRO E SUA RELEVÂNCIA PARA O PROCESSO PENAL,  https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/37654/1/Helo%C3%ADsa%20Amorim%20Santos.pdf
  11. Artigo | Miscigenação: Herança do Estupro Colonial – Brasil de Fato,  https://www.brasildefato.com.br/2021/03/15/artigo-miscigenacao-heranca-do-estupro-colonial/
  12. O papel da miscigenação na identidade cultural brasileira – Jurismenteaberta,  https://jurismenteaberta.com.br/antropologia-e-sociedade-o-papel-da-miscigenacao-na-identidade-cultural-brasileira/
  13. rosana bignami grecchi identidade brasileira e condição do negro em viva o povo brasileiro de joão ubaldo ribeiro – Mackenzie,  https://dspace.mackenzie.br/bitstreams/484b07f8-96ca-4214-9f46-c7c546a14763/download
  14. O branqueamento da raça A política imigratória imperial brasileira e a ‘qualidade’ dos imigrantes – Ca’ Foscari Edizioni,  https://edizionicafoscari.unive.it/media/pdf/books/978-88-6969-123-2/978-88-6969-123-2-ch-06.pdf
  15. O paradigma racista da política de imigração brasileira e os debates sobre a “Questão Chinesa” nos – Senado,  https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/503045/RIL202.pdf
  16. Revista USP 119 – Textos 8: Imigrantes indesejáveis. A ideologia do etiquetamento durante a Era Vargas,  https://jornal.usp.br/revistausp/revista-usp-119-textos-8-imigrantes-indesejaveis-a-ideologia-do-etiquetamento-durante-a-era-vargas/
  17. O CONCEITO DE GENOCÍDIO NA HISTÓRIA BRASILEIRA: a visão atual de violência e racismo de Abdias do Nascimento – Unieuro,  http://www.unieuro.edu.br/mestradocienciapolitica/images/Dissertacoes/mestrado/monografia_marcos_barbosa_ff.pdf
  18. Para além do pensamento social hegemônico: Abdias do Nascimento e a condição afro-brasileira,  https://periodicos.ifsul.edu.br/index.php/thema/article/download/104/45/289
  19. Língua nheengatu – Wikipédia, a enciclopédia livre,  https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_nheengatu
  20. POMBAL E NHEENGATU por Djalma Carvalho – Portal Maltanet,  http://www.maltanet.com.br/v2/colunas/djalmacarvalho/pombal-e-nheengatu
  21. Campanha de nacionalização – Wikipédia, a enciclopédia livre,  https://pt.wikipedia.org/wiki/Campanha_de_nacionaliza%C3%A7%C3%A3o
  22. LÍNGUA E O NACIONALISMO NO BRASIL: GLOTOPOLÍTICA E CAMPANHA DE NACIONALIZAÇÃO NO ESTADO NOVO VICTOR BERTHOLDO ROCHA Foz do Iguaçu 2021,  https://dspace.unila.edu.br/bitstreams/30b53a82-3416-4897-8efb-403c74f2f2f7/download
  23. Legislação Informatizada – DECRETO-LEI Nº 1.545, DE 25 DE AGOSTO DE 1939 – Publicação Original – Câmara dos Deputados,  https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1930-1939/decreto-lei-1545-25-agosto-1939-411654-publicacaooriginal-1-pe.html
  24. A ESCOLA E A INTERDIÇÃO DA LÍNGUA DOS IMIGRANTES ALEMÃES NAS MISSÕES DO RS – Unicamp,  https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/lil/article/download/8661571/23132/81388
  25. 1848 controle social, branqueamento e colonização das terras – Linha De Cor,  https://www.linhadecor.com/verbetes/ano_1848
  26. LAMBERT, Jacques. Os Dois Brasis. 1967 PDF – Scribd,  https://pt.scribd.com/document/402181570/LAMBERT-Jacques-Os-dois-Brasis-1967-pdf
  27. D — UMA COLCHA DE RETALHOS,  https://sistemabu.udesc.br/pergamumweb/vinculos/000000/000000000015/00001576.pdf
  28. COLCHAS DE RETALHOS: NARRATIVA, PATRIMÔNIO CULTURAL E EDUCAÇÃO PATCHWORK QUILTS – Revista UEG,  https://www.revista.ueg.br/index.php/revelli/article/view/14355/10170
  29. Multiculturalismo – Stevens, Guilherme Von Groll (2019, Sentinela) | PDF | Raça (categorização humana) | Estado – Scribd,  https://pt.scribd.com/document/513152583/Multiculturalismo-Stevens-Guilherme-von-Groll-2019-Sentinela
  30. Movimentos separatistas do Nordeste – Geografia – InfoEscola,  https://www.infoescola.com/geografia/movimentos-separatistas-do-nordeste/
  31. CULTURA GAúCHA E SEPARATISMO NO RIO GRANDE DO SUL,  https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/8b9b735d-9678-47d7-aea7-0c8e5ee55499/content
  32. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA E CIÊNCIA POLÍTICA A – Repositório Institucional da UFSC,  https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/189229/TCC%20ADRIANO%20TORMENA.pdf?sequence=1
  33. DANTE DE LAYTANO E O FOLCLORE NO RIO GRANDE DO SUL – CORE,  https://core.ac.uk/download/pdf/293614071.pdf
  34. O DISCURSO POLÍTICO GAÚCHO NO CONGRESSO NACIONAL: UMA ANÁLISE DA BANCADA FEDERAL GAÚCHA NA 50ª. LEGISLATURA (1995-1999) – Lume UFRGS,  https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/5803/000520813.pdf?sequence=1
  35. dois Brasis? – Gilberto Freyre e Josu de Castro – Acta Académica,  https://cdsa.aacademica.org/000-062/1261.pdf
  36. Colcha de retalhos: problematizando alguns aspectos da cultura …,  https://periodicos.ufmg.br/index.php/reb/article/download/36623/28673/110439
  37. Notícia da atual literatura brasileira: entrevistas [1, 2 ed.] 9786588990223, 6588990227 – DOKUMEN.PUB,  https://dokumen.pub/noticia-da-atual-literatura-brasileira-entrevistas-1-2nbsped-9786588990223-6588990227.html
  38. A invenção do mito nacionalista no Brasil Contemporâneo: uma cidadania forjada? (2015-2020) – Revista UEG,  https://www.revista.ueg.br/index.php/revistahistoria/article/download/10947/8064/42000
  39. o povo brasileiro – UFRRJ,  https://arquivos.ufrrj.br/arquivos/20230122460c373778628a6040b374867/RIBEIRO_Darcy_-_O_Povo_Brasileiro.pdf
  40. PARADOXOS DA EXPERIÊNCIA DEMOCRÁTICA BRASILEIRA: CONSERVADORISMO NA SOCIEDADE E APOIO À DEMOCRACIA (Valores, opiniões e atit – Cesop/Unicamp,  https://www.cesop.unicamp.br/vw/1I8T2Tq8wNQ_MDA_eb8d9_
  41. Por uma política da diferença Por uma política da … – SciELO Brasil,  https://www.scielo.br/j/cp/a/MncMVSD5NZ86jYmvyvmxVYt/?format=html&lang=pt
  42. Estudos Afro Latino Americanos | PDF | Racismo | Discriminación y relaciones raciales,  https://es.scribd.com/document/395230698/Estudos-Afro-Latino-Americanos

Gostou do artigo? Faça parte da nossa membresia clicando aqui.

Seu Banner Aqui.

Sua propaganda nos nossos artigos.
R$ 19
90
mensais
  • 1 banner lateral ou horizontal
  • Desenvolvimento da arte usada
  • Sem fidelidade, cancelamento flexível
IMPERDÍVEL