Enquanto a Guerra Fria mobilizava analistas de inteligência em Washington e Moscou em torno dos rumos da Igreja Católica e da teologia da libertação, uma revolução silenciosa ocorria na base demográfica e religiosa da América Latina e do Sul Global. Nos subúrbios, nas favelas e nas cidades do interior, o campo religioso tradicional desmoronava sob o impacto do crescimento explosivo do pentecostalismo. Se o catolicismo progressista gerou debates sobre revolução social e marxismo, o protestantismo pentecostal pavimentou um caminho político distinto, marcado por um forte conservadorismo moral, nacionalismo e, sobretudo, por um profundo e operante sionismo cristão. A pergunta que este texto explora — como o sionismo se enraizou nas igrejas pentecostais e se transformou em uma força geopolítica de primeira grandeza? — exige desenterrar as raízes teológicas, as redes de influência transnacionais e o pragmatismo eleitoral que uniram os altares neopentecostais à defesa incondicional do Estado de Israel.
A raiz dispensacionalista: quando o futuro de Israel virou dogma
Para entender por que um fiel pentecostal em São Paulo, Bogotá ou Seul celebra a bandeira de Israel com mais fervor do que muitos cristãos tradicionais, é preciso voltar ao século XIX e ao desenvolvimento de uma teologia específica: o dispensacionalismo. Popularizado pelo teólogo anglicano John Nelson Darby e amplamente difundido no mundo protestante de língua inglesa pelas notas da Bíblia de Referência Scofield (1909), esse sistema hermenêutico dividia a história humana em “dispensações” distintas e defendia que Deus mantinha um plano separado e eterno para o povo judeu, distinto do plano para a Igreja. Segundo essa visão, a restauração física do Estado de Israel na Terra Santa seria um pré-requisito indispensável para o cumprimento das profecias bíblicas do Apocalipse e para a Segunda Vinda de Cristo.
Embora o pentecostalismo tenha nascido no início do século XX — com o Avivamento da Rua Azusa em 1906 — sem uma agenda geopolítica formal, ele herdou organicamente esse arcabouço escatológico através do fundamentalismo protestante americano. Nas décadas seguintes, missionários norte-americanos ligados a denominações como as Assembleias de Deus e o Evangelho Quadrangular desembarcaram na América Latina carregando não apenas o fervor pneumatológico do batismo no Espírito Santo, mas também a leitura literal de que abençoar o Estado moderno de Israel era uma chave para a prosperidade espiritual e material de qualquer nação, ecoando a promessa bíblica feita a Abraão.
A virada geopolítica: do púlpito à bancada
Durante muitas décadas, o engajamento pentecostal com o sionismo permaneceu estritamente confinado ao plano litúrgico: cantavam-se hinos em hebreu abrasileirado, hasteavam-se bandeiras israelenses nos templos e utilizavam-se elementos visuais judaicos — como o shofar, o candelabro de sete braços e o quipá — para conferir uma aura de autenticidade bíblica aos cultos. No entanto, com a redemocratização latino-americana e o forte processo de ascensão social das classes populares através do mercado de consumo e do empreendedorismo religioso nas décadas de 1980 e 1990, essa devoção mística transformou-se em capital político palpável.
O fenômeno neopentecostal — liderado por megaigrejas como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e, posteriormente, ramificações da Assembleia de Deus — percebeu rapidamente que o alinhamento com a causa sionista oferecia múltiplos dividendos. No plano interno, funcionava como um poderoso marcador de identidade conservadora, diferenciando os evangélicos dos movimentos de esquerda associados ao catolicismo progressista. No plano externo e simbólico, a Terra Santa passou a ser o destino supremo de peregrinação em massa, as chamadas “caravanas da fé”, movimentando milhões de dólares em turismo religioso e consolidando uma narrativa de que o crente pentecostal era o verdadeiro herdeiro espiritual das promessas bíblicas.
A internacionalização e o lobby invisível
Assim como a CIA e a KGB monitoravam e tentavam instrumentalizar as estruturas católicas e ecumênicas na Guerra Fria, o ativismo sionista nas igrejas pentecostais também começou a ser olhado com atenção por diplomatas e governos estrangeiros, embora sob uma dinâmica completamente distinta de mercado livre religioso. A partir dos anos 2000, com o avanço da bancada evangélica nos parlamentos latino-americanos, o apoio geopolítico a Israel deixou de ser apenas uma pauta doutrinária e passou a se traduzir em votos estratégicos na política externa.
Governos israelenses, independentemente de suas inclinações partidárias, passaram a cultivar ativamente lideranças evangélicas globais. A lógica diplomática era clara: em um cenário de crescente isolamento de Israel em fóruns internacionais como a ONU, o bloco de dezenas de milhões de eleitores pentecostais na América Latina e na África representava um amortecedor político inestimável. Embaixadas e organizações ligadas ao governo israelense intensificaram o intercâmbio cultural, convidando bispos e pastores de grande projeção para visitas oficiais a Jerusalém, onde eram recebidos com honras de chefes de Estado. Em troca, o púlpito pentecostal converteu-se na mais eficiente correia de transmissão de uma visão de โmédio oriente favorável a Israel, blindando a política externa israelense de críticas mais severas entre as bases populares do Sul Global.
O pragmatismo e a contradição da fé armada
Críticos do sionismo pentecostal, tanto à esquerda quanto em setores do protestantismo histórico e tradicional, apontam que essa aliança é profundamente utilitária e teologicamente frágil. Teólogos reformados e luteranos frequentemente argumentam que o dispensacionalismo comete um erro hermenêutico ao aplicar promessas territoriais da Antiga Aliança a um Estado secular moderno fundado em 1948 por correntes sionistas seculares e socialistas. Apontam também a contradição humanitária: enquanto o fiel comum celebra Israel sob uma ótica estritamente espiritual, as consequências geopolíticas dessa blindagem diplomática afetam populações inteiras no Oriente Médio, incluindo minorias cristãs palestinas que historicamente compartilham pouca ou nenhuma afinidade com o sionismo americano ou latino-americano.
Por outro lado, para a sociologia da religião, o fenômeno não pode ser reduzido a uma simples manipulação externa. O sionismo pentecostal é autêntico na sua base porque cumpre uma função civilizatória e identitária para o neófito urbano: ele conecta o marginalizado social — antes estigmatizado ou ignorado pelas elites tradicionais — a uma narrativa milenar de grandiosidade, eleição divina e vitória final sobre o mal.
O que os fatos revelam
No fim das contas, assim como ocorreu com a Guerra Fria na Igreja Católica, o fenômeno demonstra que a religião na América Latina nunca foi um mero reflexo passivo de maquinações internacionais. Foi, e continua a ser, um campo de batalha onde milhões de pessoas buscam sentido, poder e transcendência — e onde governos do mundo todo aprenderam que, para conquistar o presente, é preciso primeiro capturar a fé e as intepretações escatológicas.
Fontes primárias e leitura complementar
- C.I. Scofield, The Scofield Reference Bible (Oxford University Press, 1909 — edição de referência para a disseminação do dispensacionalismo).
- Paul F. Knitter e o debate ecumênico, análises sobre o impacto das escatologias protestantes na política externa das Américas.
- Leandro Narloch e pesquisas de sociologia da religião sobre o empreendedorismo religioso e a ascensão das bancadas evangélicas no Brasil e na América Latina.
- Timothy P. Weber, On the Road to Armageddon: How Evangelicals Became Israel’s Best Friend (Baker Academic, 2004).
- Donald E. Wagner, Anxious for Armageddon: A Call to Partnership for Middle Eastern and Western Christians (Herald Press, 1995).
- Artigos acadêmicos e dossiês de sociologia das religiões sobre o turismo religioso (“caravanas da fé”) e o intercâmbio geopolítico entre lideranças neopentecostais e o Estado de Israel.