A Soberania do Indivíduo e a Alma da Comunidade: Uma análise minuciosa da Relação entre Libertarianismo e o Conceito de Nação e Estado

Parte I: O Paradoxo Aparente entre Universalismo e Particularismo

A teoria política contemporânea frequentemente opera sob uma dicotomia simplista que opõe o universalismo dos direitos humanos ao particularismo das identidades nacionais. Neste esquema convencional, o libertarianismo é muitas vezes caricaturado como uma filosofia de atomismo social radical, onde indivíduos desenraizados flutuam num vácuo de mercado, desprovidos de laços culturais, linguísticos ou históricos. No entanto, uma análise rigorosa e exaustiva da tradição austro-libertária — especificamente através das lentes de Ludwig von Mises, Murray N. Rothbard e Hans-Hermann Hoppe — revela uma realidade teórica profundamente mais rica e complexa. Longe de rejeitar o conceito de “nação”, estes autores engajaram-se num esforço intelectual secular para resgatar a nacionalidade das garras do estatismo, propondo uma síntese onde a liberdade individual e o pertencimento comunitário não apenas coexistem, mas são interdependentes.

O objetivo deste relatório é conduzir uma investigação profunda sobre a ontologia da nação dentro do pensamento libertário. A questão central que anima esta pesquisa é: existe uma contradição inerente entre a ética da propriedade privada absoluta e a existência de coletivos nacionais? E, se não há contradição, como interagem estas esferas quando o Estado — a entidade que reivindica o monopólio da representação nacional — é removido ou deslegitimado?

Para responder a estas questões, é imperativo dissecar a evolução do pensamento austríaco em três atos distintos, porém contínuos. Primeiro, examinaremos o liberalismo clássico de Mises, forjado nas cinzas do Império Austro-Húngaro, onde a nação é definida linguisticamente e a secessão é o mecanismo de paz. Segundo, analisaremos a radicalização rothbardiana, que utiliza a história revisionista e a teoria dos direitos naturais para posicionar a nação contra o Estado, vendo nos movimentos de libertação nacional uma força potencial para a descentralização global. Terceiro, exploraremos a sociologia conservadora de Hoppe, que reinterpreta a nação como uma “comunidade de pacto” (covenant community) e argumenta que a preservação cultural é um pré-requisito para a manutenção de uma ordem libertária, lançando uma crítica devastadora à democracia moderna como agente de decivilização e erosão nacional.

Esta análise não se limitará a expor as teorias, mas buscará identificar as tensões internas, as implicações de segunda ordem sobre políticas de imigração e guerra, e a viabilidade da “nação privatizada” como alternativa ao Estado-Nação westfaliano.

A interrogação central que motiva este relatório — “como defender uma nação sem um Estado-Nação?” — toca no nervo exposto da teoria política contemporânea. A história dos últimos três séculos foi dominada pela narrativa vestfaliana que equaciona a sobrevivência de um povo à posse de um aparato estatal burocrático, centralizado e territorialmente exclusivo. Contudo, essa fusão entre identidade cultural (“nação”) e monopólio da violência (“estado”) não é ontologicamente necessária, nem historicamente universal. Pelo contrário, a evidência sugere que o nacionalismo estatista, ao vincular a nação ao estado, cria um vetor de vulnerabilidade: o estado frequentemente se torna o algoz da própria nação que jura proteger, através de processos de homogeneização forçada, tributação predatória e, em casos extremos, democídio.

Este documento propõe uma análise exaustiva e multidisciplinar — abrangendo ciência política, antropologia, economia, história militar e tecnologia blockchain — para demonstrar como nações apátridas podem e defendem a sua existência. A análise decompor-se-á em três eixos principais: os fundamentos teóricos que deslegitimam o estado como protetor natural; os modelos operacionais de defesa descentralizada (desde o confederalismo democrático curdo ao enxameamento zapatista); e as tecnologias emergentes que permitem a soberania econômica e identitária sem território fixo.

1. A Ontologia da Separação: Nação, Estado e a Falácia da Identidade

Para abordar a defesa da nação sem o estado, é imperativo primeiro desconstruir a confusão terminológica deliberada que sustenta a legitimidade do Estado-Nação moderno. A distinção não é meramente semântica; é funcional e existencial.

1.1 Definições e Distinções Críticas

A ciência política contemporânea e a sociologia histórica oferecem definições precisas que separam estas entidades.

  • Nação: Uma nação é definida academicamente como um grupo de pessoas que partilham uma cultura comum, raízes étnicas, língua, religião, memória histórica e, crucialmente, um desejo explícito de agir como uma unidade política ou preservar a sua identidade distinta.1 É uma entidade orgânica, emergente da interação social voluntária e da ancestralidade compartilhada. A nação existe na mente e nos hábitos do povo, independentemente das fronteiras políticas traçadas em mapas.
  • Estado: O Estado é uma entidade política institucional com um governo próprio que reivindica, com sucesso, o monopólio do uso legítimo da força física e da tributação dentro de uma fronteira geográfica delimitada.1 É uma maquinaria administrativa e coercitiva.
  • Estado-Nação: Este é o ideal, raramente alcançado na prática, de uma homogeneidade onde as fronteiras da nação coincidem perfeitamente com as fronteiras do Estado.3 Na realidade, a maioria dos Estados são “Estados-Nações” apenas no nome; são impérios em miniatura que contêm múltiplas nações ou fragmentos de nações dentro das suas fronteiras, impondo frequentemente a cultura da nação dominante sobre as minorias.2

A existência de “nações sem estado” (stateless nations) — como os Curdos, Palestinos, Bascos, Catalães, Roma, e Tâmeis — refuta empiricamente a necessidade do estado para a existência da nação.6 Estes grupos mantêm coesão social, língua e identidade cultural robustas, apesar (e muitas vezes por causa) da ausência de um aparato estatal próprio ou da hostilidade dos estados onde residem.7

1.2 O Nacionalismo Estatista e o Perigo do Coletivismo

A premissa do usuário de que “o nacionalismo estatista vincula o estado à nação e isso abre precedentes de abuso coletivista” é corroborada por uma vasta literatura teórica e dados empíricos sombrios.

A Crítica de Lord Acton ao Estado-Nação: No século XIX, o historiador Lord Acton já alertava que a teoria da nacionalidade, quando fundida com o poder estatal, é um passo em direção ao absolutismo. Acton argumentava que a presença de diferentes nações sob a mesma soberania política (como numa federação ou império multinacional liberal) era a melhor barreira contra a tirania, pois impedia o governo de invadir a esfera social e cultural.8 Quando o Estado se torna o “molde e a medida” da nação, ele não tolera diversidade. O objetivo do Estado-Nação torna-se a homogeneização da população para alinhar a realidade demográfica com o ideal político, um processo que inerentemente envolve violência contra culturas minoritárias e dissidentes.9

O Estado como Agente de Homogeneização (James C. Scott): O cientista político James C. Scott, na sua obra seminal Seeing Like a State, detalha como os governos centrais operam através de uma lógica de “legibilidade”. Para administrar, taxar e conscrever eficazmente, o Estado precisa simplificar a complexidade social.10

  • Mecanismo: Isso envolve a imposição de línguas oficiais, a sedentarização de populações nômades, a criação de sobrenomes fixos e cadastros fundiários uniformes.10
  • Consequência: Essa “jardinagem estatal” destrói as estruturas orgânicas de resiliência comunitária (metis), tornando a população dependente do Estado e vulnerável a erros de planejamento centralizado em grande escala.11 Defender a nação através do Estado significa, paradoxalmente, permitir que o Estado deforme a nação para torná-la governável.

A Letalidade do Estado (R.J. Rummel e o Democídio):

A estatística mais alarmante contra a defesa estatal provém do trabalho de R.J. Rummel sobre o “democídio” (assassinato de pessoas pelo seu próprio governo).

  • Dados: No século XX, os governos mataram aproximadamente 262 milhões das suas próprias pessoas — um número que supera as mortes em todas as guerras internacionais combinadas desse período.13
  • Análise: Rummel estabelece uma correlação direta: “O poder mata; o poder absoluto mata absolutamente”. Estados com poder centralizado e irrestrito (frequentemente justificado por nacionalismo ou ideologia coletivista) são os mais letais para as suas próprias populações.14

Portanto, a busca por defesa não-estatal não é um luxo teórico, mas um imperativo de sobrevivência. Se o Estado é estatisticamente a maior ameaça à vida e à cultura de uma nação, dissociar a defesa da nação do aparato estatal é a estratégia de mitigação de risco mais racional.

2. A Teoria da Defesa Sem Estado: Modelos Conceituais

Se descartarmos o Estado como o provedor monopolista de segurança, como organizamos a defesa? Diferentes espectros políticos desenvolveram modelos teóricos robustos que substituem a coerção centralizada pela cooperação voluntária e descentralizada.

2.1 Anarcocapitalismo: O Mercado de Proteção e a Privatização da Defesa

A teoria anarcocapitalista, articulada por Murray Rothbard e David Friedman, propõe que a defesa é um serviço econômico como qualquer outro, e não um privilégio místico do Estado.

Soberania Individual e Propriedade: Rothbard fundamenta a defesa no direito de propriedade e autopropriedade. A “nação”, neste contexto, é um agregado de indivíduos e suas propriedades. Uma agressão contra a nação é, na prática, uma agressão contra indivíduos específicos.16 O Estado, ao cobrar impostos coercitivos para prover “defesa”, é ele próprio um agressor inicial, violando os direitos que afirma proteger.17

Mecanismos Operacionais (O Modelo de Friedman):

David Friedman descreve uma “Engrenagem da Liberdade” onde o monopólio estatal é substituído por um mercado competitivo:

  • Agências de Proteção de Direitos (PDAs): Em vez de uma polícia nacional, os indivíduos e comunidades contratam agências privadas de segurança. Estas empresas têm um incentivo econômico direto para proteger eficazmente os seus clientes e evitar violência desnecessária, pois a guerra é dispendiosa e afasta clientes.18
  • Arbitragem Privada: Conflitos entre clientes de diferentes agências não levam à guerra civil, mas são resolvidos por tribunais de arbitragem privada pré-acordados nos contratos das agências. O “direito” emerge do mercado e do costume, não da legislação estatal arbitrária.20
  • Defesa Nacional: Contra uma invasão estrangeira maciça, a sociedade livre defender-se-ia através de milícias voluntárias, guerrilha descentralizada e a dificuldade inerente de conquistar um território onde não existe uma estrutura central para se render ou controlar. Ocupar uma sociedade sem Estado é como tentar pregar gelatina na parede: não há “governo” para assinar a rendição.21

2.2 Confederalismo Democrático: Autodefesa Social

No outro extremo do espectro ideológico, mas convergindo na rejeição do Estado-Nação, está o Confederalismo Democrático, desenvolvido por Abdullah Öcalan com forte influência da Ecologia Social de Murray Bookchin.

A Crítica à Hierarquia: Bookchin argumentava que o Estado-Nação é uma extensão das hierarquias de dominação patriarcal e de classe. A verdadeira liberdade requer a dissolução do poder central em assembleias municipais face-a-face.22 Öcalan adaptou isto para o contexto do Médio Oriente, argumentando que a busca por um “Estado Curdo” era uma armadilha que apenas reproduziria a opressão.24

A Teoria da Autodefesa Legítima:

No modelo de Öcalan, a defesa não é uma função delegada a profissionais, mas um dever de toda a sociedade. A “nação” defende-se a si mesma.

  • Sociedade Armada: A defesa deve ser organizada na base (cidades e bairros), garantindo que as forças armadas (como as YPG/YPJ) sejam responsáveis perante as assembleias locais e não se tornem uma nova elite dominante.26
  • Coexistência Transfronteiriça: O objetivo não é mudar as fronteiras dos estados existentes (Síria, Turquia, Irã, Iraque), mas torná-las irrelevantes através da confederação de comunidades autônomas através dessas fronteiras. Isso permite que a nação curda se una politicamente sem precisar criar um estado unificado.2

2.3 Agorismo e Panarquia: Estratégias de Evasão e Escolha

Agorismo (Samuel Konkin III):

O Agorismo propõe a “Contra-Economia” como método de defesa e evolução. Se o Estado se alimenta de impostos e regulação, a defesa da nação envolve retirar esse sustento.

  • Defesa Econômica: Operar nos mercados negro e cinza (a “ágora”) permite acumular riqueza fora do alcance do Estado. Esta riqueza pode então financiar serviços de proteção privados e infraestrutura comunitária.28
  • Evasão como Combate: Ao tornar-se economicamente invisível, a nação reduz a sua vulnerabilidade à predação estatal. A “Guerra Não-Convencional” moderna reconhece o Agorismo como uma forma potente de resistência sistêmica.30

Panarquia:

A Panarquia leva a descentralização ao limite, sugerindo que a soberania não deve ser territorial.

  • Governança Não-Territorial: Diferentes “governos” ou provedores de defesa operam no mesmo espaço físico, com jurisdição sobre pessoas (voluntários) e não sobre a terra. Isso permitiria que curdos, árabes e turcos vivessem na mesma cidade, cada um subscrevendo aos seus próprios sistemas legais e de defesa, resolvendo disputas através de protocolos intersistêmicos.31

3. Estudo de Caso Aprofundado: A Resistência Curda e o Modelo de Rojava

O exemplo mais tangível de defesa de uma nação sem estado na atualidade é a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (AANES/Rojava). A experiência curda valida e desafia as teorias acima, oferecendo lições pragmáticas sobre sobrevivência cercada por Estados hostis.

3.1 Arquitetura de Defesa: As Forças Populares

Ao contrário de um exército estatal, que é separado da sociedade civil, as forças de Rojava são desenhadas para serem parte integrante da “Nação”.

YPG e YPJ (O Escudo Externo):

As Unidades de Proteção Popular (YPG) e as Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ) formam a espinha dorsal militar.

  • Estrutura Ideológica: A YPJ não é apenas uma unidade de combate; é um mecanismo de defesa social, que Öcalan identifica como a base do Estado e da escravidão. Ao armar as mulheres, a nação cria uma barreira contra o retorno de estruturas hierárquicas tradicionais.33
  • Logística Híbrida: Embora tenham recebido apoio tático dos EUA contra o ISIS, a base logística das YPG depende fortemente de recursos locais e redes de contrabando transfronteiriço, operando numa economia de guerra semi-clandestina.35

HPC (Forças de Defesa Civil – O Escudo Interno):

Menos conhecidas mas cruciais são as Hêzên Parastina Civakî (HPC).

  • Descentralização Radical: O HPC é organizado ao nível da comuna (vizinhança). São voluntários civis — o padeiro, o professor, a avó — que realizam rondas noturnas e protegem a sua própria rua.33
  • Função Social: Eles intervêm em disputas domésticas e crime comum antes que se tornem problemas policiais. O HPC encarna a ideia de que “só a sociedade pode defender a sociedade”. Ao contrário da polícia (Asayish), que é profissional e centralizada, o HPC impede que o monopólio da força se consolide completamente nas mãos da administração, mantendo o poder de fogo disperso na população.27

3.2 Economia de Guerra e Financiamento da Nação Sem Estado

A defesa requer recursos. Como financiar um exército sem um sistema fiscal estatal coercivo formal e reconhecido internacionalmente?

  • Recursos Naturais e Mercado Cinza: A administração controla campos de petróleo críticos. Sem capacidade de exportação legal (devido a sanções e falta de reconhecimento estatal), o petróleo é vendido no mercado interno e contrabandeado para regiões vizinhas, gerando receita vital. Este é um exemplo de agorismo estatal de facto.38
  • O Papel da Diáspora: A nação curda estende-se globalmente. A diáspora na Europa funciona como um pulmão financeiro, enviando remessas e doações que sustentam tanto as famílias quanto a administração. Organizações como o Crescente Vermelho Curdo canalizam ajuda humanitária que liberta recursos locais para a defesa.41 As redes da diáspora também exercem pressão diplomática, agindo como um “Ministério das Relações Exteriores” descentralizado.41

3.3 Justiça Restaurativa: Coesão como Defesa

A defesa interna contra a fragmentação social é gerida pelos Comitês de Paz e Consenso.

  • Em vez de tribunais punitivos estatais, estes comitês locais resolvem a vasta maioria dos conflitos (dívidas, brigas, disputas de terra) através de mediação e consenso. O objetivo é restaurar a harmonia comunitária, não impor uma lei abstrata.42
  • Isso fortalece a solidariedade interna, essencial para uma nação sob cerco, e evita a alienação que sistemas judiciais estatais frequentemente criam em minorias.44

4. Estudo de Caso Aprofundado: O Neozapatismo e a Defesa em Rede

O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) em Chiapas, México, ilustra a evolução de uma guerrilha marxista clássica para um movimento de resistência autônoma baseada em redes de informação e descentralização territorial.

4.1 De Guerrilha a “Netwar” Social

Após o levante inicial de 1994, o EZLN percebeu que não podia derrotar o Estado mexicano militarmente. Adotaram então uma estratégia de “Netwar Social” (Guerra em Rede).

  • Enxameamento Informacional: Os Zapatistas mobilizaram a sociedade civil global e ONGs através da internet incipiente. Quando o exército mexicano tentava cercá-los, um “enxame” de observadores internacionais, ativistas e jornalistas convergia para Chiapas (fisicamente e digitalmente), aumentando o custo político da repressão para o governo mexicano a um nível insustentável.46
  • Guerra de Narrativa: A defesa da nação indígena passou a depender da sua capacidade de comunicar a sua humanidade e legitimidade ao mundo, quebrando o monopólio narrativo do Estado.48

4.2 A Estrutura dos Caracóis e a Nova Descentralização (GAL)

A organização política dos Zapatistas evoluiu para maximizar a defesa através da dispersão.

  • Municípios Autônomos (MAREZ): Durante décadas, operaram governos paralelos que rejeitavam qualquer serviço do Estado (educação, saúde, justiça), provendo-os de forma autônoma. Isso criou um “vazio de Estado” onde a nação indígena floresceu.50
  • Reestruturação de 2023 (GALs): Recentemente, o EZLN dissolveu os MAREZ e as Juntas de Bom Governo, substituindo-os pelos Governos Autônomos Locais (GAL). Esta mudança foi uma resposta estratégica ao aumento da violência dos cartéis e paramilitares.
  • Lógica Defensiva dos GALs: Ao descentralizar o poder para o nível de cada povoado ou comunidade base, o EZLN eliminou alvos centralizados. Uma estrutura piramidal pode ser decapitada; uma rede horizontal de milhares de GALs é muito mais difícil de destruir. A defesa e a segurança tornaram-se responsabilidade direta de cada comunidade, aumentando a resiliência contra a cooptação e o ataque.52

4.3 Legibilidade e Opacidade

Seguindo a lógica de James C. Scott, os Zapatistas utilizam a opacidade como defesa. O uso de passaclavas (máscaras) não é apenas estético; é uma negação da “legibilidade” individual perante o Estado. Todos são “Marcos” ou “Moisés”, impedindo o Estado de identificar e visar lideranças individuais facilmente. A recusa em aceitar censos ou programas governamentais mantém a comunidade ilegível e, portanto, ingovernável por fora.11

5. Táticas, Estratégias e Tecnologias de Defesa Assimétrica

A defesa de uma nação sem estado contra um ator estatal requer a adoção de doutrinas assimétricas que neutralizem a vantagem de poder de fogo do adversário.

5.1 Doutrina de Enxameamento (Swarming)

O conceito militar de swarming, analisado por Arquilla e Ronfeldt, é ideal para forças descentralizadas.

  • Mecânica: Em vez de manter linhas de frente contínuas (que requerem recursos massivos), unidades pequenas e autônomas convergem de todas as direções para atacar um alvo e dispersam-se imediatamente após.
  • Aplicação: Uma milícia nacional descentralizada pode usar comunicação móvel para coordenar ataques simultâneos à logística do invasor, tornando a ocupação um pesadelo logístico e psicológico. A defesa torna-se “onipresente mas invisível”.46

5.2 Contra-Economia e Criptoeconomia (O Modelo Ukraine DAO)

O financiamento é o tendão de Aquiles das nações sem estado. A tecnologia blockchain oferece uma solução para o problema do Free Rider e do bloqueio financeiro estatal.

  • DAOs (Organizações Autônomas Descentralizadas): Permitem a gestão de tesourarias comunitárias transparentes sem contas bancárias que possam ser congeladas por governos. O exemplo da Ukraine DAO, que angariou milhões vendendo um NFT da bandeira para defesa, pode ser replicado por nações apátridas.57
  • Tributação Voluntária Global: Uma nação sem estado pode emitir tokens ou NFTs que funcionam como “títulos de guerra” ou prova de cidadania/doação. A diáspora global pode financiar a defesa local instantaneamente, contornando sanções e o sistema SWIFT.58

5.3 Identidade Auto-Soberana (SSI)

A defesa da nação é também a defesa da identidade dos seus membros. Estados frequentemente usam a burocracia para apagar minorias (negando cidadania ou documentos, como no caso dos Rohingya ou Curdos na Síria pré-2011).60

  • Bitnation e Blockchain: Projetos como Bitnation provaram que é possível registrar nascimentos, casamentos e identidades na blockchain. Estes registros são imutáveis e independentes de qualquer Estado.
  • Resiliência: Mesmo que o Estado queime os arquivos ou negue a existência de um povo, a “burocracia digital” da nação persiste na nuvem descentralizada, permitindo a continuidade da vida civil e o reconhecimento mútuo entre os membros da nação.61

6. Precedentes Históricos: A Viabilidade Comprovada

A ideia de defesa sem estado não é uma utopia futurista, mas uma realidade histórica recorrente.

6.1 A Haganah (O Yishuv antes de 1948)

Antes da criação do Estado de Israel, a comunidade judaica na Palestina (Yishuv) funcionava como uma nação sem estado com uma defesa altamente eficaz.

  • Defesa Descentralizada: A Haganah começou como uma federação de guardas locais em kibbutzim e cidades. Não havia “Comandante em Chefe” estatal; a autoridade emanava das instituições civis da Agência Judaica e das comunidades locais.64
  • Indústria Clandestina: Sem acesso a importações legais de armas, desenvolveram uma indústria subterrânea de fabricação de armas e redes de contrabando, provando que a logística militar pode operar fora da legalidade estatal.64

6.2 O Sistema Roma (Kris)

Os Roma (ciganos) sobreviveram como nação por mil anos sem território ou estado, frequentemente sob perseguição extrema.

  • Justiça Interna: A Kris Romani é um tribunal consuetudinário que resolve conflitos internos. Ao manter o monopólio da justiça dentro da comunidade, os Roma evitam recorrer à polícia dos “Gadjé” (não-Roma), mantendo a insularidade e a coesão defensiva.66
  • Estratégia de Mobilidade: A sua tradicional dispersão e mobilidade funcionaram como defesa. Um alvo móvel e disperso é difícil de erradicar completamente. A sua defesa é a sua própria rede social indestrutível.7

7. Análise Comparativa e Conclusões Estratégicas

A análise dos dados permite sintetizar as vantagens e vulnerabilidades dos modelos de defesa não-estatal.

Tabela 1: Comparativo de Modelos de Defesa Nacional

CaracterísticaEstado-Nação (Modelo Tradicional)Rojava (Confederalismo Democrático)Zapatistas (Autonomia Indígena)Anarcocapitalismo (Modelo de Mercado)
Fonte de LegitimidadeConstituição / Monopólio da ForçaContrato Social / Assembleias LocaisAssembleias Comunitárias (“Mandar Obedecendo”)Direitos de Propriedade / Contratos
Estrutura de DefesaExército Permanente HierárquicoMilícias (YPG) + Defesa Civil (HPC)Milicianos Rotativos / Base de ApoioAgências Privadas Competitivas (PDAs)
FinanciamentoImpostos Coercitivos (Tributação)Petróleo / Doações Diáspora / Receita LocalAutossuficiência Agrícola / SolidariedadePrémios de Seguro / Taxas de Serviço
Resiliência a AtaquesCentralizada (Risco de Decapitação)Distribuída (Resiliente, mas vulnerável a aéreo)Altamente Distribuída (GALs – Difícil de erradicar)Descentralizada (Resiliente economicamente)
Risco de Abuso InternoAlto (Democídio / Policiamento abusivo)Moderado (Mitigado por HPC e estruturas femininas)Baixo (Controle comunitário direto)Variável (Depende da competição de mercado)

7.1 Síntese Analítica

  1. O Estado não é pré-requisito para defesa: A história da Haganah, dos Zapatistas e de Rojava demonstra inequivocamente que a capacidade militar e de segurança pode ser gerada a partir da sociedade civil, muitas vezes com maior motivação e menor custo do que exércitos estatais conscriptos.
  2. A Descentralização aumenta a Sobrevivência: Estruturas como os GALs zapatistas ou o HPC curdo são mais resilientes a ataques sistêmicos do que hierarquias rígidas. A defesa da nação sem estado baseia-se na redundância e na distribuição de responsabilidade.
  3. Vulnerabilidade Aérea e Pesada: O calcanhar de Aquiles das nações sem estado é a defesa contra potências estatais com força aérea e artilharia pesada (ex: Turquia vs Rojava). Sem acesso a mercados de armas estatais, a defesa tende a ser assimétrica (resistência) em vez de simétrica (conquista/dissuasão convencional).
  4. O Risco do “Tornar-se Estado”: Existe uma tensão constante, visível na história de Israel e nas pressões sobre Rojava, onde a necessidade de defesa militar eficiente empurra a nação de volta para a centralização estatal. O desafio do Confederalismo Descentralizado é manter a eficiência militar sem ressuscitar o monstro do Estado-Nação.

7.2 Conclusão

Defender uma nação sem um Estado-Nação não é apenas uma possibilidade teórica, mas uma prática vibrante e em evolução. Exige, contudo, uma mudança de paradigma: da defesa baseada no território e no monopólio, para uma defesa baseada na rede, na identidade e na mobilização voluntária.

O nacionalismo estatista, ao tentar forçar a nação dentro da caixa do Estado, muitas vezes mutila a nação para que ela caiba dentro do estado. Não precisa ser assim. A alternativa — exemplificada pelos curdos, zapatistas e teóricos libertários — é permitir que a nação respire através de múltiplas estruturas de governança, defendendo-se através da complexidade, da dispersão e da indomável vontade de comunidades que se recusam a ser homogeneizadas por um estado. A verdadeira defesa da nação reside na capacidade do seu povo de se organizar espontaneamente, tornando o Estado, em última análise, irrelevante para a sua sobrevivência.

Parte II: Ludwig von Mises e a Gênese da Nação Liberal

O ponto de partida para qualquer discussão séria sobre libertarianismo e nacionalidade deve ser a obra de Ludwig von Mises. Escrevendo no rescaldo cataclísmico da Primeira Guerra Mundial, Mises não estava engajado em especulação acadêmica abstrata, mas tentava compreender o colapso da ordem liberal europeia e a ascensão do nacionalismo virulento que despedaçou o Império Habsburgo. Em sua obra seminal de 1919, Nation, State, and Economy, e posteriormente em Liberalism (1927), Mises estabelece as fundações para uma teoria liberal da nação que é simultaneamente cosmopolita e profundamente respeitosa das diferenças culturais.

1.1 A Definição Praxeológica de Nação: Linguagem e Pensamento

Mises rejeita categoricamente as definições de nação baseadas em misticismo estatal, geografia predestinada ou biologia racial crua. Em vez disso, ele adota uma abordagem sociológica e praxeológica — centrada na ação humana. Para Mises, a nação é, em sua essência, uma comunidade linguística.

A linguagem, na análise misesiana, não é meramente uma ferramenta técnica de comunicação; é o substrato do pensamento e da cooperação social.1 O indivíduo pensa, sente e avalia o mundo através das categorias conceituais fornecidas pela sua língua materna. Como a cooperação social e a divisão do trabalho dependem da comunicação, a comunidade linguística torna-se a unidade natural de sociedade. Mises observa que:

“Uma nação, composta por pessoas que falam a mesma língua e, em grande medida, partilham a mesma cultura, era um conceito essencialmente neutro, de modo algum incompatível com uma economia liberal, a liberdade individual, a democracia e o direito de autodeterminação.” 2

Esta definição tem implicações profundas. Se a nação é uma realidade cultural objetiva baseada na comunicação, ela existe independentemente do Estado. As fronteiras políticas são artifícios administrativos que podem ou não coincidir com as fronteiras nacionais. O conflito surge, segundo Mises, não da existência de diferentes nações, mas da tentativa do Estado de forçar a coincidência entre território político e uniformidade linguística em regiões onde as populações são mistas.3

1.2 O Dilema dos Territórios Mistos e o Nacionalismo Agressivo

A análise de Mises sobre os “territórios mistos” da Europa Oriental é crucial para entender sua distinção entre nacionalismo liberal (pacífico) e nacionalismo estatista (militarista). Na Europa Ocidental, as fronteiras nacionais e estatais coincidiam em grande parte. Na Europa Oriental, no entanto, alemães, tchecos, poloneses, magiares e eslovacos viviam entrelaçados nas mesmas cidades e províncias.

Neste contexto, Mises identifica que a democracia majoritária, quando acoplada a um Estado intervencionista, torna-se uma máquina de opressão. Se o Estado controla as escolas, a administração pública e o sistema judicial, a maioria linguística pode usar essas instituições para asfixiar culturalmente a minoria.4 A educação obrigatória, por exemplo, deixa de ser um serviço e torna-se uma arma para impor a língua da maioria aos filhos da minoria.

Isso transforma a nacionalidade de um fato cultural em um ativo político vital. Pertencer à “nação do Estado” significa ter acesso a empregos públicos, justiça compreensível e educação na língua materna. Pertencer à minoria significa exclusão e assimilação forçada. Mises argumenta que essa dinâmica é a raiz do nacionalismo agressivo:

“Em territórios poliglotas, a democracia parece-se com a opressão… O nacionalismo pacífico deu lugar ao militarismo, ao conflito internacional e à guerra.” 2

A conclusão misesiana é de uma clareza cortante: o Estado não pode ser culturalmente neutro se for intervencionista. Quanto maior o escopo do Estado na vida econômica e social, maior será o conflito entre as nações que habitam o mesmo território.

1.3 O Direito de Autodeterminação e a Secessão como Tecnologia de Paz

Para resolver o problema do conflito nacional, Mises não propõe a abolição das nações, mas a flexibilização radical das fronteiras estatais através do direito de autodeterminação. É fundamental notar que Mises inverte a lógica wilsoniana (do Presidente Woodrow Wilson). Para Wilson, a autodeterminação era um direito coletivo de “povos” definidos etnicamente para formarem Estados. Para Mises, é um direito individual dos habitantes de um território.

Mises leva o liberalismo às suas últimas consequências lógicas ao defender o direito de secessão unilateral. Ele argumenta que, se os habitantes de qualquer território — seja uma província, uma cidade ou mesmo uma vila — desejarem se separar do Estado a que pertencem, seja para formar um novo Estado independente ou para se juntar a outro Estado vizinho, esse desejo deve ser respeitado.5

“O direito de autodeterminação no que diz respeito à questão da pertença a um Estado significa: sempre que os habitantes de um determinado território… fizerem saber, através de um plebiscito livremente conduzido, que não desejam permanecer unidos ao Estado a que pertencem… os seus desejos devem ser respeitados.” 6

Mises chega a afirmar que, se fosse tecnicamente possível conceder esse direito a cada indivíduo isoladamente, o liberalismo teria de o fazer.5 A secessão, nesta ótica, não é um ato de guerra, mas a única forma de evitar a guerra civil e internacional. Se as fronteiras podem ser alteradas pacificamente por plebiscitos, perde-se o incentivo para a conquista territorial. A fronteira torna-se uma linha administrativa fluida, ajustável às preferências demográficas e culturais da população.

1.4 A Economia da Nação: Livre Comércio e Migração

A visão de Mises sobre a nação é indissociável de sua teoria econômica. Sob o capitalismo laissez-faire, a nacionalidade perde seu “veneno” político. Com o livre comércio, não importa se uma região rica em recursos pertence à Alemanha ou à França, pois os consumidores de ambos os países têm igual acesso aos seus produtos através do mercado.3

Da mesma forma, Mises aborda a questão da migração. Ele reconhece que, em um mundo liberal ideal, a mobilidade do trabalho seria desimpedida, permitindo que os trabalhadores se movessem para onde sua produtividade fosse maior, equalizando salários globais.7 No entanto, ele alerta que, sob o Estado de Bem-Estar Social (Welfare State) e o sindicalismo, a imigração se torna problemática. Os sindicatos e os beneficiários de serviços públicos veem os imigrantes como ameaças aos seus salários artificialmente altos ou aos seus benefícios fiscais. Assim, o protecionismo migratório é uma consequência inevitável do intervencionismo estatal, criando novas barreiras entre as nações e fomentando a xenofobia.6

Parte III: Murray Rothbard e a Nação contra o Leviatã

Se Mises via a nação como uma realidade cultural a ser protegida do abuso estatal, Murray Rothbard radicaliza essa posição ao identificar o Estado não apenas como um mau gestor das relações nacionais, mas como o inimigo predatório da própria sociedade. Rothbard funde a economia austríaca com a tradição anarquista individualista americana e o revisionismo histórico para articular uma teoria onde o nacionalismo pode servir como uma ferramenta revolucionária contra o imperialismo e a centralização.

2.1 A Anatomia do Estado e a Falácia do “Nós”

A fundação da teoria rothbardiana sobre a nação reside na distinção ontológica absoluta entre “Sociedade” (ou Nação/País) e “Estado”. Baseando-se em Albert Jay Nock 9 e Franz Oppenheimer, Rothbard define o Estado como a organização dos “meios políticos” — a aquisição de riqueza através da coerção e do confisco — em oposição à sociedade, que é a organização dos “meios econômicos” — produção e troca voluntária.

Rothbard ataca vigorosamente a ideologia democrática moderna que busca fundir esses dois conceitos através da frase “nós somos o governo”. Para Rothbard, isso é uma camuflagem ideológica grotesca.

“Se ‘nós somos o governo’, então qualquer coisa que um governo faça a um indivíduo não é apenas justo e não tirânico, mas também ‘voluntário’… Se o governo recruta um homem ou o lança na prisão por opinião dissidente, então ele está ‘fazendo isso a si mesmo’.” 11

Esta distinção é vital para o conceito de nação. O patriotismo, quando dirigido ao Estado, é um erro categorial que serve para escravizar o indivíduo. A verdadeira lealdade patriótica deve ser dirigida à “terra, ao povo, à cultura” — ou seja, à nação orgânica — o que frequentemente exige uma oposição radical ao Estado que explora esse povo e essa terra.12

2.2 O Nacionalismo de Libertação e o Anti-Imperialismo

Ao contrário de muitos liberais clássicos que viam o nacionalismo com suspeita universal, Rothbard adotou uma postura tática e de princípios a favor dos movimentos de “libertação nacional”, especialmente no contexto do imperialismo do século XX.

Rothbard argumentava que o imperialismo é a projeção do poder estatal para além de suas fronteiras originais, impondo controle coercitivo sobre outros povos e nações. Portanto, uma guerra de libertação nacional — a tentativa de um povo subjugado de expulsar o Estado imperial invasor — é um ato de defesa legítima e um movimento em direção à liberdade, mesmo que os libertadores acabem por instituir o seu próprio Estado (presumivelmente menor e mais fraco).13

Em seu ensaio National Liberation, Rothbard critica os libertários que se recusam a apoiar a independência de nações sob domínio soviético ou ocidental com o argumento purista de que “apenas criariam mais Estados”.

“A libertação nacional é a única solução para os grandes problemas mundiais de disputas territoriais e domínio nacional opressivo… a decomposição do Estado-nação centralizador em suas nacionalidades constituintes reduzirá o escopo do poder governamental.” 13

Ele traça um paralelo direto com a Revolução Americana, interpretando-a não como uma revolução social igualitária, mas como uma guerra de secessão nacionalista contra o Império Britânico — um ato supremo de libertação nacional que os libertários americanos celebram.15 A lógica é a da descentralização: um mundo de 1.000 pequenos Estados (ou, idealmente, 1.000.000 de comunidades autônomas) é preferível a um mundo dominado por dois ou três blocos imperiais hegemônicos. A proliferação de nações independentes aumenta a concorrência jurisdicional e dificulta o protecionismo e a tirania interna.16

2.3 Crítica à Guerra e a Destruição da Nação pelo Estado

Rothbard incorpora a tese de Randolph Bourne de que “A Guerra é a Saúde do Estado”.17 Em tempos de paz, a distinção entre Estado e sociedade permanece visível; as pessoas cuidam de suas vidas privadas. No entanto, na guerra, o Estado mobiliza a “Nação” como um rebanho unificado, criminalizando a dissidência e expandindo seus poderes de tributação e vigilância a níveis inimagináveis em tempos de paz.

A análise econômica de Rothbard sobre o dinheiro e a guerra é particularmente relevante aqui. A capacidade do Estado de inflar a moeda (através de Bancos Centrais e dinheiro fiduciário) permite que ele financie guerras intermináveis sem o consentimento tributário explícito da população.19 Este processo não apenas mata os cidadãos da nação em campos de batalha estrangeiros, mas também destrói a poupança e a estrutura de capital doméstica, empobrecendo a nação para engrandecer o Estado e os seus cronies corporativos (o complexo militar-industrial).21 Assim, o nacionalismo de Estado é, paradoxalmente, o maior inimigo da prosperidade e sobrevivência biológica da nação.

2.4 Nações por Consentimento: A Privatização da Fronteira

A contribuição teórica final e talvez mais sofisticada de Rothbard para o tema é a sua tentativa de reconciliar a identidade nacional com a propriedade privada absoluta em seu ensaio Nations by Consent (1994). Rothbard aborda o problema da imigração e da integração forçada reconhecendo uma lacuna na teoria libertária padrão de fronteiras abertas.

Em um sistema de propriedade totalmente privada (anarco-capitalismo), não existem “fronteiras nacionais” no sentido político, apenas fronteiras de propriedade. Cada proprietário tem o direito absoluto de admitir ou excluir qualquer pessoa de sua terra. A “Nação”, neste cenário, reconstituir-se-ia através de contratos e convênios voluntários. Pessoas que desejam viver entre falantes de português, católicos ou amantes de jazz se agrupariam em bairros ou regiões onde as regras de propriedade (covenants) refletissem esses valores.14

O problema surge na situação atual, onde o Estado controla as “ruas públicas” e terras vastas. Rothbard argumenta que uma política de “fronteiras abertas” sob o Estado atual equivale a uma “integração forçada”, pois o Estado convida imigrantes a usarem a propriedade “pública” (financiada pelos contribuintes locais) contra a vontade destes últimos.23

A solução de Rothbard é a “decomposição” do Estado-Nação em unidades cada vez menores e a privatização das decisões de acesso. Se cada bairro fosse dono de suas ruas, poderia decidir sua própria política de imigração.

“Se procedermos com a decomposição e descentralização do moderno Estado-nação centralizador… desconstruindo esse estado em nacionalidades constituintes e vizinhanças… o escopo do contrato privado e do consentimento voluntário será aprimorado.” 14

Isso leva ao conceito de “Nação por Consentimento”: comunidades culturais homogêneas mantidas não pela violência policial nas fronteiras, mas pelo exercício contratual dos direitos de propriedade.

Parte V: Hans-Hermann Hoppe e a Ordem Natural Excludente

Hans-Hermann Hoppe, aluno de Rothbard e profundo estudioso de Mises, leva a análise da relação entre libertarianismo e nação a um novo patamar sociológico e antropológico. Em sua obra Democracy: The God That Failed (2001), Hoppe argumenta que a estrutura política democrática é antitética à preservação da nação e da civilização, e que a liberdade requer uma ordem social rigorosa e discriminatória.

3.1 Democracia como Agente de Decivilização e Erosão Nacional

A tese central de Hoppe baseia-se na teoria da preferência temporal. Ele compara a monarquia (propriedade privada do governo) com a democracia (propriedade pública do governo).

  • O monarca, vendo a nação como seu patrimônio a ser legado aos herdeiros, tem um incentivo para preservar o valor do capital social e cultural. Ele age com uma orientação de longo prazo.
  • O governante democrático, sendo apenas um zelador temporário (“caretaker”), tem o incentivo de maximizar a extração de recursos (tributos) e a compra de votos no curto prazo, sem se importar com a dissipação do capital da nação.24

Hoppe argumenta que a democracia promove a “decivilização”. Para manter o poder, os políticos democráticos devem constantemente redistribuir riqueza e minar as instituições intermediárias (família, igreja, comunidades locais) que oferecem resistência ao Estado. Isso resulta numa fragmentação da coesão nacional. A lei deixa de ser um conjunto de princípios universais e torna-se legislação flexível para beneficiar grupos de pressão, criando um conflito permanente de “todos contra todos” para capturar o Estado.26

3.2 A Ordem Natural e as Comunidades de Pacto (Covenant Communities)

Contra a democracia, Hoppe propõe a “Ordem Natural” — uma sociedade sem Estado baseada puramente na propriedade privada. Crucialmente, Hoppe visualiza essa ordem não como uma utopia cosmopolita e libertina, mas como uma colcha de retalhos de comunidades altamente restritivas e culturalmente homogêneas.

Hoppe argumenta que a liberdade (a ausência de agressão física) requer certos pré-requisitos culturais: respeito pela propriedade, autodisciplina, orientação para o futuro. Comunidades que desejam preservar a liberdade devem, portanto, ser vigilantes na manutenção desses valores. Em uma ordem natural, isso seria feito através de “comunidades de pacto”.27

Nestas comunidades, os proprietários assinariam contratos (covenants) estipulando regras de conduta. Aqueles que violassem essas regras — sejam criminosos, comunistas ou proponentes de comportamentos considerados socialmente destrutivos pela comunidade — seriam fisicamente removidos (expulsos da propriedade).

“Uma ordem natural é caracterizada por discriminação, segregação, separação espacial, uniculturalismo (homogeneidade cultural), exclusividade e exclusão.” 28

Para Hoppe, a “Nação” em seu sentido mais profundo — uma comunidade de valores, língua e costumes compartilhados — só pode ser verdadeiramente preservada através deste mecanismo de exclusão privada. O Estado democrático, ao impor leis antidiscriminação e promover a integração forçada, impede que as comunidades se protejam da diluição cultural.

3.3 O Debate sobre Imigração e a Defesa da Cultura Ocidental

A aplicação mais controversa e influente da teoria de Hoppe reside no debate sobre imigração. Hoppe rompe com a ortodoxia libertária de “fronteiras abertas” (defendida por autores como Walter Block) ao argumentar que, enquanto o Estado existir e controlar a propriedade “pública”, a imigração irrestrita é ilegítima.

Hoppe utiliza o princípio do “custo total” (full cost principle). Em uma ordem natural, um imigrante só entraria se convidado por um proprietário que arcasse com todos os custos e riscos de sua presença. O imigrante não teria acesso a “bens públicos” gratuitos. No sistema atual, o Estado convida imigrantes e transfere os custos (educação, saúde, criminalidade, uso de infraestrutura) para os contribuintes nativos. Isso constitui “integração forçada”.8

Hoppe argumenta que o Estado deve agir como um fiduciário (trustee) dos contribuintes. Se os contribuintes (os verdadeiros donos da propriedade pública) pudessem votar, eles provavelmente escolheriam restringir a imigração para preservar o valor de suas propriedades e a coesão cultural de suas vizinhanças. Portanto, uma política libertária de “segundo melhor” (second best) exigiria restrições imigratórias estritas, favorecendo imigrantes com alta competência e compatibilidade cultural (viés pró-Ocidental/Europeu), para mimetizar o que ocorreria numa ordem de propriedade privada.8

Hoppe vê a imigração em massa não qualificada como uma tática do Estado para diluir a cultura conservadora e proprietária das nações ocidentais, criando uma base eleitoral dependente do Estado de Bem-Estar Social. Assim, a defesa da homogeneidade nacional torna-se, na estratégia hoppeana, uma defesa da própria possibilidade de uma ordem libertária futura.

Parte IV: Síntese Analítica – Contradições, Interações e a Dialética do Pertencimento

Após dissecar os três autores, podemos agora sintetizar a relação complexa entre libertarianismo e nação. A análise revela que não há uma contradição fundamental, mas sim uma tensão estratégica sobre como transitar do estatismo para a liberdade preservando a identidade.

4.1 Tabela Comparativa de Perspectivas

A tabela abaixo resume as posições dos autores, destacando a evolução do conceito:

Dimensão AnalíticaLudwig von Mises (Liberalismo Clássico)Murray Rothbard (Anarco-Capitalismo Revisionista)Hans-Hermann Hoppe (Paleolibertarianismo / Ordem Natural)
Definição de NaçãoComunidade linguística e cultural; realidade pré-política neutra.Entidade histórica/étnica oprimida pelo Estado; base de resistência.Comunidade de valores e cultura (Covenant); pré-requisito para a ordem social.
Relação Estado-NaçãoO Estado intervencionista corrompe a nação, gerando chauvinismo.O Estado é o inimigo mortal da nação; “Guerra é a Saúde do Estado”.A Democracia é um agente de decivilização que dissolve a coesão nacional.
Solução para ConflitosDireito de Secessão ilimitado e individual; Estado Mínimo neutro.Decomposição do Estado; Libertação Nacional; Privatização de ruas.Ordem Natural; Comunidades de Pacto Excludentes; Remoção física.
Política de ImigraçãoLivre circulação econômica, mas reconhece problemas sob o Welfare State.Privatização das decisões (Nações por Consentimento); contra a integração forçada.Restrição severa pelo Estado (como trustee) para mimetizar a exclusão privada.
Visão da GuerraDestruidora da prosperidade e da cooperação internacional.Ferramenta de engrandecimento do Estado e destruição da nação.Consequência da alta preferência temporal democrática e expansionismo.

4.2 A Interação Econômica: Moeda, Guerra e Nação

Um insight de segunda ordem que emerge transversalmente é o papel da economia monetária na destruição da nação. Mises, Rothbard e Hoppe concordam que o abandono do padrão-ouro e a adoção do dinheiro fiduciário (fiat money) são o que permite ao Estado travar a “guerra total”.19

Sob um padrão metálico, o governo teria de taxar diretamente a nação para financiar aventuras militares, o que geraria resistência imediata. Com o dinheiro fiduciário e o Banco Central, o Estado pode inflacionar a moeda, transferindo riqueza silenciosamente da nação produtiva para o complexo militar-industrial e burocrático. A inflação age como um imposto invisível que corrói a classe média — a espinha dorsal da nação civilizada.20 Portanto, a defesa da moeda sólida (ouro/prata) é apresentada por estes autores não apenas como política econômica, mas como uma medida vital de defesa nacional contra a predação estatal.

4.3 O Debate Block-Hoppe e a Fronteira da Ética Libertária

A tensão mais aguda na literatura atual reside no debate entre Walter Block e Hans-Hermann Hoppe sobre imigração, que reflete visões distintas sobre a nação.

  • A Posição de Block: Prioriza a deslegitimação das fronteiras estatais. Para Block, impedir um imigrante de cruzar uma linha imaginária desenhada pelo Estado é uma agressão. A “nação” não tem direitos; apenas indivíduos têm. Se um empregador quer contratar um imigrante, o Estado (ou a “nação”) não pode intervir.7
  • A Réplica de Hoppe: Argumenta que Block ignora a realidade da propriedade pública financiada coercitivamente. Numa situação onde a propriedade não é totalmente privada, deve-se perguntar: “a quem pertenceria o direito de decidir a entrada?” Hoppe responde: aos contribuintes locais. Permitir a entrada livre em propriedade “pública” é violar o direito dos contribuintes de não serem forçados a associar-se. A defesa da integridade cultural da nação torna-se, assim, uma defesa proxy dos direitos de propriedade dos cidadãos.8

Este debate ilustra que a interação entre libertarianismo e nação depende crucialmente do contexto institucional: num mundo de propriedade privada pura, o conflito desaparece (substituído por contratos); num mundo estatista, o libertário deve escolher entre a liberdade de movimento do não-cidadão e o direito de propriedade/associação do cidadão.

4.4 A “Nação Privatizada” como Modelo Futuro

A síntese final aponta para o conceito de “Nação Privatizada”. Ao contrário do nacionalismo do século XIX, que buscava capturar o Estado para unificar a nação (ex: Risorgimento Italiano), o nacionalismo libertário do século XXI busca dissolver o Estado para libertar as micro-nações.

  • A “nação” deixa de ser uma categoria territorial fixa e torna-se uma rede de afinidades voluntárias.
  • A tecnologia e a globalização econômica permitem que essas comunidades mantenham sua identidade sem autarquia econômica (graças ao livre comércio defendido por Mises).
  • A exclusão social (defendida por Hoppe) substitui a prisão e a guerra como método de manter a coesão social.

Conclusão: A Nação como Baluarte da Liberdade

A análise exaustiva das obras de Mises, Rothbard e Hoppe demonstra de forma conclusiva que não existe contradição inerente entre o libertarianismo e o conceito de nação. Pelo contrário, estes autores fornecem as ferramentas intelectuais para resgatar a nação da sua corrupção pelo Estado.

  1. A Nação é Real: Para os libertários austríacos, a nação não é uma construção arbitrária, mas uma realidade praxeológica (linguística e cultural) essencial para a formação da identidade humana e a facilitação da cooperação social.
  2. O Estado é o Parasita: A história do Estado moderno é a história da captura e exploração dos sentimentos nacionais para justificar a expansão do poder, a guerra e a tributação. O nacionalismo de Estado (“We are the government”) é uma fraude perigosa.
  3. A Separação é a Solução: A paz e a liberdade exigem a separação radical entre Nação e Estado. Isso pode ocorrer através da secessão política (Mises), da revolução anti-imperialista (Rothbard) ou da privatização das comunidades e exclusão física de elementos hostis (Hoppe).

Em última análise, o libertarianismo oferece à nação o único terreno onde ela pode florescer genuinamente: a liberdade. Sem a coerção estatal para impor uma cultura oficial, as nações devem sobreviver e prosperar baseadas no valor que oferecem aos seus membros e na força de seus laços voluntários. A visão libertária não é o fim das nações, mas o renascimento das nações como associações voluntárias de homens livres, protegidas pela propriedade privada e unidas pelo consentimento, não pela espada.

Referências citadas

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  74. Report from Rojava: Revolution at a Crossroads – ESRC STEPS Centre,  https://steps-centre.org/europe-hub/report-from-rojava-revolution-at-a-crossroads/
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  76. Imagining the Commune – Gupea,  https://gupea.ub.gu.se/bitstream/handle/2077/64110/gupea_2077_64110_1.pdf?sequence=1
  77. How restorative justice fits with an adversarial system – The Law Association of New Zealand,  https://thelawassociation.nz/how-restorative-justice-fits-with-an-adversarial-system/
  78. John Arquilla David Ronfeldt – Analytic Technologies,  http://www.analytictech.com/mb021/swarming%20db311.pdf
  79. The Zapatista ”Social Netwar” in Mexico – RAND,  https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/monograph_reports/1998/MR994.pdf
  80. “Networks and Netwars: The Future of Terror, Crime, and Militancy” John Arquilla and David Ronfeldt,  https://web.stanford.edu/class/symbsys205/Networks_and_Netwars.htm
  81. The Zapatista “Social Netwar” in Mexico – RAND,  https://www.rand.org/pubs/monograph_reports/MR994.html
  82. EZLN Announces Changes to Autonomous Governing Structures – Avispa Midia,  https://avispa.org/ezln-announces-changes-to-autonomous-governing-structures/
  83. Zapatista uprising – Wikipedia,  https://en.wikipedia.org/wiki/Zapatista_uprising
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  88. Swarming and the Future of Conflict – RAND,  https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/documented_briefings/2005/RAND_DB311.pdf
  89. What the DAO? Why Everyone Is Talking About Decentralized Autonomous Organizations,  https://www.omm.com/insights/alerts-publications/what-the-dao-why-everyone-is-talking-about-decentralized-autonomous-organizations/
  90. Decentralized autonomous organization – Wikipedia,  https://en.wikipedia.org/wiki/Decentralized_autonomous_organization
  91. Case Profiles of Decentralized Autonomous Organizations – Belfer Center,  https://www.belfercenter.org/publication/case-profiles-decentralized-autonomous-organizations
  92. What is Statelessness? Causes, Impact, and Solutions,  https://refugees.org/what-is-statelessness/
  93. eID and Self-Sovereign Identity Usage: An Overview – MDPI,  https://www.mdpi.com/2079-9292/10/22/2811
  94. BITNATION : In Bitnation’s world, you can become a Citizen of any Nation through a smartphone application | by ArisTaufik16 | Medium,  https://medium.com/@arditfixni16/bitnation-in-bitnations-world-you-can-become-a-citizen-of-any-nation-through-a-smartphone-4e49b20ca9dc
  95. Digital solutions for providing self-sovereignty to stateless populations through blockchain technology – College Green Group,  https://collegegreengroup.com/blogs/digital-solutions-for-providing-self-sovereignty-to-stateless-populations-through-blockchain-technology/
  96. The Haganah – Jewish Virtual Library,  https://www.jewishvirtuallibrary.org/the-haganah
  97. Haganah – Wikipedia,  https://en.wikipedia.org/wiki/Haganah
  98. Romani kris – Scandinavian non-state conflict resolution in light of minority rights,  https://portal.research.lu.se/en/projects/romani-kris-scandinavian-non-state-conflict-resolution-in-light-o/
  99. (PDF) Kris in a Roma diaspora: New insights on transnational conflict resolution,  https://www.researchgate.net/publication/386232968_Kris_in_a_Roma_diaspora_New_insights_on_transnational_conflict_resolution

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